Mostrando postagens com marcador Novos Paradigmas em Educação. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Novos Paradigmas em Educação. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 29 de julho de 2014

O PENSAMENTO FILOSÓFICO NA ARTE EDUCAÇÃO


Antonio Bokel

[Escrevi este texto há algum tempo... ainda atual...]

A APLICABILIDADE DO PENSAMENTO FILOSÓFICO NA ARTE EDUCAÇÃO


“Não se deve ensinar pensamentos, mas a pensar; não se deve carregar o aluno, mas guiá-lo se quer que ele seja apto no futuro a caminhar por si próprio. [...] Ampliar a aptidão intelectual dos jovens que nos foram confiados e formá-los para um discernimento próprio [...] Semelhante procedimento tem a vantagem de que o aprendiz, mesmo que jamais chegue ao último grau, como em geral acontece, terá sempre ganho alguma coisa com o ensino e se terá tornado mais atinado, senão perante a escola, pelo menos perante a vida."
Immanuel Kant(1)

Imaculada Conceição


É difícil falar a propósito da necessidade do estudo filosófico no âmbito da prática da arte educação sem tocar neste ponto essencial: de que essa necessidade não difere em nada da que podemos exigir para todas as ordens da realidade humana. Qualquer que seja a área de estudo, pesquisa ou ação, o pensamento filosófico e reflexivo é de suma importância.

A origem da filosofia confunde-se com a origem das primeiras indagações humanas (primeiras, porque essenciais) em suas tentativas de compreender o mundo, a realidade e, sobretudo, buscar um sentido para a própria existência.

O “papel” da filosofia (se formos procurar por uma “utilidade”: sempre tão exigida!) é o de contribuir através do exercício do pensamento, da reflexão e da crítica para que nos tornemos mais conscientes, não apenas de nosso próprio ser (i.e., nossa singularidade enquanto indivíduos, únicos e insubstituíveis), mas também de nosso fazer e de nossa inserção no mundo (o espaço sócio-histórico-cultural-etc. do qual fazemos parte), portanto, como sujeitos históricos, sociais e políticos que somos. Mas é especialmente na consciência de sermos integrantes de uma mesma comunidade: a comunidade humana (pessoas que têm direitos, mas também deveres, sobretudo éticos; pessoas que diferem em suas contextualidades e se assemelham por nossa humana origem comum), que o pensamento filosófico participa mais ativamente. Mas e quanto à educação em arte?

Poesia visual de Alex Hamburg

Poucos devem duvidar da importância do pensamento reflexivo nas várias áreas do conhecimento humano. Mas talvez haja alguns que ainda questionem qual a real aplicabilidade do estudo filosófico numa área de natureza essencialmente prática, como é o caso da arte educação. É ter no entanto a vista curta ou não estar disposto a penetrar no coração mesmo do fazer artístico (seja este de natureza musical, teatral, literária, visual etc.).

Toda atividade artística exige um pensar específico (o pensamento visual, o pensamento espacial, o pensamento musical etc.) e uma inteligência própria que o viabilize. Ora, quem duvida que um músico não precise de uma atividade intelectual para criar e executar suas composições musicais? Ou que arquitetos não aliem inteligentemente visualidade espacial, beleza e cálculos matemáticos para o sucesso e viabilidade de seus projetos? Ou que um perfumista não faça plenamente uso de suas faculdades mentais para aliar conhecimentos de química com o prazer sensível de suas misturas aromáticas? Ou que um desenhista industrial não precise de uma inteligência matemática e de um atento senso comum para aliar prazer estético, praticidade e utilidade? O fazer artístico depende de um pensamento reflexivo capaz de conectar elementos diversos pertencentes às nossas múltiplas faculdades (capacidades), tais como o entendimento, a imaginação, a sensibilidade etc.(2)

Certo, nossos alunos não são - ao menos ainda e talvez nunca pensem mesmo em ser - artistas plásticos, músicos, paisagistas, dramaturgos, estilistas, escritores, cenógrafos, cineastas, fotógrafos, dançarinos etc. Aliás, não é objetivo da arte na escola fundamental formar artistas e/ou críticos de arte; mas oportunizar o exercício do fazer/pensar/julgar/experimentar arte (numa compreensão de suas contextualizações). O que eu quero sublinhar aqui é que o exercício do fazer artístico não difere muito do de um profissional para o de um “amador” (alguém que só faz por hobby ou pelo simples prazer de fazer gratuitamente), assim como não mais para o de nossos alunos.

Henry Matisse

O que difere a prática artística profissional da gratuidade singular (“desinteressada”) de todo fazer/pensar artístico (o “livre jogo das faculdades”) é a intenção (o “interesse”) - que se concretiza no final do processo. O processo em si (i.e., enquanto forma de pensamento) não difere muito. Nosso aluno, quando da construção de seu trabalho de arte, faz uso, tanto quanto o artista profissional, do “pensamento reflexivo” - que é a raiz do pensamento estético(3). O que difere é que ele não tem por pretensão, por exemplo, sua inserção no Mercado e/ou na História da Arte, sua pertença ao meio artístico etc. ( - isso que não elimina toda “intencionalidade”, mas marca uma diferença de perspectiva e de orientação final desta, que, no caso, estaria orientada especialmente para o processo de construção do trabalho – inclusive como produto final, porém indiferente ao que não seja o simples fazer/criar; em outras palavras: a interconexão do pensar-fazer). Em comum ainda, além do pensamento reflexivo, a capacidade de interagir e comunicar-se: elos de conexão do pensamento e sentimentos de quem cria e/ou aprecia e ajuíza com toda a comunidade humana.


Cena de "Animação Trash: Nossas Primeiras Experiências" realizada pelos alunos da E.M. Mario Piragibe na Oficina Itinerante de Animação(Núcleo de Arte Grande Otelo) (4)

Pensar e fazer ou fazer e pensar são duas faces de uma mesma inserção no mundo. Ambos estão de tal modo intimamente conectados que o simples imaginar uma prática sem pensamento ou um pensar sem uma prática não passa de fato de uma quimera (talvez, mesmo, inconcebível, inimaginável, impensável: pois ao conceber, imaginar ou pensar, já não estamos nós praticando um ato - mesmo que seja o ato íntimo de cogitar? - e este não pode, cedo ou tarde, vir a inserir-se no mundo e tornar-se realidade sob alguma forma?).

Pode-se pensar mal. Ou pode-se agir irrefletidamente (i.e., sem uma reflexão consciente das causas que originaram os nossos atos ou das conseqüências que eles terão). Pode-se negligenciar a conexão essencial entre o pensar e o agir; mas não se pode evitá-la (ao menos enquanto em pleno uso de nossas consciências). O mais simples fazer exige alguma forma de pensamento e uma inteligência específica que o acompanha. O mais elementar ato de pensamento exige uma ação que se executa no próprio ato de pensar; ou, em um nível mais elaborado, no construir-se como forma aplicada de pensamento (como obra, método, fala, informação, comunicação etc.), i.e., sua aplicação (realização) na ordem do real; ou, em uma etapa ainda mais completa (e complexa): na transformação da ordem do mundo e da vida.


Parangolé de Hélio Oiticica


NOTAS:
(1) KANT, I. Lógica (Apêndice: “Anotações do professor Immanuel Kant sobre a organização de suas preleções no inverno de 1765-1766”).
(2) e (3) KANT, I. Crítica da Faculdade do Juízo – a terceira Crítica kantiana, onde o filósofo aborda o pensamento estético.
(4) Assistam a primeira parte de "Animação Trash: Nossas Primeiras Experiências": http://nucleodeartegrandeotelo.blogspot.com/2009/10/as-animacoes-de-nossos-alunos-estao-na.html

domingo, 1 de julho de 2012

Ainda no Clima da Rio+20. Um Texto de Leonardo Boff...



Insuficiências conceituais da Rio+20


O que espanta é que o documento final e o rascunho não mostram nenhum sentido de autocrítica. Não se perguntam por que chegamos à atual situação, nem percebem, claramente, o caráter sistêmico da crise. Aqui reside a fraqueza teórica e a insuficiência conceitual deste e, em geral, de outros documentos oficiais da ONU.


Leonardo Boff


Não corresponde à realidade dizer que a Rio+20 foi um sucesso. Pois não se chegou a nenhuma medida vinculante nem se criaram fundos para a erradicação da pobreza nem mecanismos para o controle do aquecimento global. Não se tomaram decisões para a efetivação do propósito da Conferência que era criar as condições para o “futuro que queremos”. É da lógica dos governos não admitirem fracassos. Mas nem por isso deixam de sê-lo. Dada a degradação geral de todos os serviços ecossistêmicos, não progredir significa regredir.


No fundo, afirma-se: se a crise se encontra no crescimento, então a solução se dá com mais crescimento ainda. Isso concretamente significa: mais uso dos bens e serviços da natureza o que acelera sua exaustão e mais pressão sobre os ecossistemas, já nos seus limites. Dados dos próprios organismos da ONU dão conta que de desde a Rio 92 houve uma perda de 12% da biodiversidade, 3 milhões de metros quadrados de florestas foram desmatados, 40% mais gases de efeito estufa foram emitidos e cerca da metade das reservas de pesca mundiais foram exauridas.


O que espanta é que o documento final e o rascunho não mostram nenhum sentido de autocrítica. Não se perguntam por que chegamos à atual situação, nem percebem, claramente, o caráter sistêmico da crise. Aqui reside a fraqueza teórica e a insuficiência conceitual deste e, em geral, de outros documentos oficiais da ONU. Elenquemos alguns pontos críticos.

Os que decidem continuam dentro do velho software cultural e social que coloca o ser humano numa posição adâmica: sobre a natureza como o seu dominador e explorador, razão fundamental da atual crise ecológica. Não entendem o ser humano como parte da natureza e responsável pelo destino comum. Não incorporaram a visão da nova cosmologia que vê a Terra como viva e o ser humano como a porção consciente e inteligente da própria Terra com a missão de cuidar dela e garantir-lhe sustentabilidade. Ela é vista tamsomente como um reservatório de recursos, sem inteligência e propósito.


Acolheram a “grande transformação”(Polanyi) ao anular a ética, marginalizar a política e instaurar como único eixo estruturador de toda a sociedade a economia; de uma economia de mercado passou-se a uma sociedade de mercado, descolando a economia real da economia financeira especulativa, esta comandando aquela. Confundiram desenvolvimento com crescimento, aquele como o conjunto de valores e condições que permitem o desabrochar da existência humana e este como mera produção de bens a serem comercializados no mercado e consumidos.

Entendem a sustentabilidade como a maneira de garantir a continuidade e a reprodução do mesmo, das instituições, das empresas e de outras instâncias, sem mudar sua lógica interna e sem questionar os impactos que causam sobre todos os serviços ecossistêmicos. São reféns de uma concepção antropocêntrica, quer dizer: todos os demais seres somente ganham sentido na medida em que se ordenam ao ser humano, desconhecendo a comunidade de vida, também gerada, como nós, pela Mãe Terra. Mantém uma relação utilitarista com todos os seres, negando-lhes valor intrínseco e por isso como sujeitos de respeito e de direitos, especialmente o planeta Terra.


Por considerar tudo pela ótica do econômico que se rege pela competição e não pela cooperação, aboliram a ética e a dimensão espiritual na reflexão sobre o estilo de vida, de produção e de consumo das sociedades. Sem ética e espiritualidade, nos fizemos bárbaros, insensíveis à paixão de milhões de milhões de famintos e miseráveis. Por isso impera radical individualismo, cada país buscando o seu bem particular por em cima do bem comum global, o que impede, nas Conferências da ONU, consensos e convergências na diversidade. E asssim, hilariantes e alienados, rumamos ao encontro de um abismo, cavado por nossa falta de razão sensível, de sabedoria e de sentido transcendente da existência.


Com estas insuficiências conceituais, jamais sairemos bem das crises que nos assolam. Este era o clamor da Cúpula dos Povos que apresentava alternativas de esperança. Na pior das hipóteses, a Terra poderá continuar mas sem nós. Que Deus não o permita, porque é “o soberano amante da vida” como atestam as Escrituras judaico-cristãs.

Leonardo Boff é teólogo e escritor.


Imagens: cenas das animações criadas por meus alunos do ensino fundamental (E.M.Mario Piragibe/6ª-CRE-RJ) sobre a Conferência Rio+20: http://imaculadacon.blogspot.com.br/2012/06/no-clima-da-rio20.html


(*) Postado por Imaculada Conceição M. Marins [texto reproduzido da página de Carta Maior: http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=5662


sábado, 7 de janeiro de 2012

Educação: Novos Paradigmas [2]




Meu comentário ao texto de João Mattar: Formação de Professores

[ Originalmente um comentário informal(*) à postagem de João Mattar(**), em seu blog sobre cursos de formação de professores.(1)
Como, noutro dia, postei aqui um comentário que fiz - Educação: Novos Paradigmas 1 - de seu vídeo, que fala do uso de games na educação... achei que seria interessante postar este comentário também... ]

Imaculada Conceição




Hoje estava andando pela praia e me veio à cabeça este grande insight, rs: “formação de professores” é a expressão politicamente correta, que inclusive uso, mas dá uma sensação de que os professores são deformados, não? De que temos uma forma pronta para formatar todos. Caberia perguntar aos professores se eles querem ser “formados” e, principalmente, para que forma.

A expressão politicamente correta em inglês, hoje, é Professional Development, que está mais próxima do campo semântico de aperfeiçoamento do que de formação.

Mas tem outro grande insight, mais antigo: é incrível como hoje todo mundo se considera preparado e capaz de formar professores no uso de tecnologias me educação (às vezes só porque sabe mexer em um software ou é apaixonado por tecnologia), todo mundo tem um coelho na cartola, um curso prontinho na cabeça, uma ideia de como os professores devem ser, em que eles devem se transformar, um discurso pronto sobre a “resistência” dos professores, um clichê sobre a zona de conforto, o que está errado na educação, uma revolução!

Todo mundo é capaz de rabiscar uma rota de formação de professores em minutos, seguro de que aquele é o melhor caminho, sem mesmo ter dado aula ou tendo tido um mínimo contato com alunos.

Mas valeria a pena ouvir só um pouquinho os professores, não? Saber o que eles querem, do que eles precisam. Este é um dos princípios do design educacional: analisar os aprendizes e seu contexto. Mas não, queremos mudar, enxergamos perfeitamente (de fora) o que está errado e como as coisas deveriam ser, ignorando o que os próprios professores pedem – afinal, se as coisas estão erradas, eles por consequência pedem errado, querem naturalmente continuar com o status quo, qualquer demanda deles é um sinal de resistência, e é preciso mudar, mudar para a nossa visão.

Cabe saber se queremos formar o outro, de acordo com as suas necessidades, ou reformar a nós mesmos, projetando no outro o que queremos mudar em nós. Mas o princípio básico da alteridade diz: eu sou eu, o outro é o outro.

Nunca estamos prontos, somos metamorfoses ambulantes, mas não precisamos necessariamente nos transformar no sonho dos outros. Nossa visão tem também que ser ouvida. Demonizar os professores não é a solução para a educação, mas um movimento na direção da tirania da formação.

Meu comentário ao texto de João Mattar:
Formação de Professores(*)


João, sob esta perspectiva que você citou, pior do que "formação" é "capacitação" (os cursos atuais para os educadores do Rio tem esse nome): seríamos então... "incapazes"? Na verdade, João, eu me importo bem pouco com a nomenclatura que dão aos cursos de "aperfeiçoamento profissional" (como você bem citou, uma nomenclatura boa, mas creio que não usada para evitar confusão com as "Pós" assim denominadas) que nós, professores, recebemos! Participo dos cursos de formação, das capacitações... e o que mais aparecer! Neles aprendemos bem mais do que o "conteúdo" oferecido (que às vezes não acrescentam quase nada ou são "nulos" para nossa real prática em "sala de aula")! Temos contato com outros colegas professores: e só isso já vale! É inacreditável como, não importa qual a estrutura da escola em que trabalhamos, se temos mais ou menos recursos disponíveis, mais ou menos liberdade/autonomia dentro dos espaços escolares, se a escola fica na periferia ou nas áreas centrais e "nobres" da cidade... Parece que os nossos problemas semelham... Alguns estão "tão desanimados" que confessam já terem "jogado a toalha", "desistido" da educação... mas, passa um tempo e... os reencontramos animados e confiantes, apresentando seus novos projetos! "Nós somos professores (brasileiros) e não desistimos nunca"! rs

Aliás, em falar em sala de aula, em prática pedagógica (em especial, no ensino fundamental e médio - e, mais especificamente, no ensino público), cito a frase que mais me chamou atenção aqui no seu texto (e a que mais gostei): "Todo mundo é capaz de rabiscar uma rota de formação de professores em minutos, seguro de que aquele é o melhor caminho, sem mesmo ter dado aula ou tendo tido um mínimo contato com alunos"! O mais assustador é quando nós, professores, que sabemos o que é educar em uma escola (todas as dificuldades reais!) construímos discursos que parecem ter sido feitos para "agradar" os caras que querem montar todo um esquema vindo "de fora"... A escola ainda é construída de modo a não nos permitir plenamente trabalharmos com projetos que possibilitem uma maior autonomia e conexão colaborativa entre nós, professores, e nossos alunos. Na maioria das vezes, o que conseguimos realizar dentro dos "novos paradigmas" educacionais acaba sendo nas atividades extra-classes (ou em projetos que - infelizmente - não abrangem todas as nossas turmas, durante todo o ano letivo).
O que é a "escola de fato"? Espaços/tempos (de)limitados = grade curricular/carga horária/(infra)estrutura construída de modo a não favorecer plenamente as "inovações" educacionais...

É preciso só um cuidado: há os que pensam que bastaria mudar toda a estrutura "arquitetônica" e inserir aulas com uso de TICs em salas ambientes bem equipadas para já estarmos trabalhando dentro de um "novo paradigma educacional"! Qualquer professor do ensino fundamental e médio que já trabalhou ou que conhece quem trabalha numa escola "com todos esses recursos" (ou que tem filhos, parentes ou filhos de amigos que lá estudam) sabe que não é bem assim... Eu estive numa reunião numa dessas escolas e fiquei tão encantada com seu "arquitetônico estilo futurista", que cheguei para um professor, que leciona nela, e disse: "Cara, você trabalha no paraíso!" - e ele me respondeu com ar desalentado: "Nem tudo é o que parece..."! Senti-me no filme Matrix!!!!

A "tecnologia pode trazer transformações importantes", sim, mas ela não é tudo... Eu conheci recentemente uma professora que trabalha com métodos tradicionais de alfabetização, e cujas as vagas para sua turma são concorridíssimas dentro da escola! As crianças que não conseguiram aprender a ler e a escrever em anos anteriores em outras turmas (e que estão com defasagem de idade/série) são pela professora alfabetizadas! Ela incentiva a leitura de livros e escritos "tradicionais" (e tem um projeto excelente, chamado "Rua da Leitura")! Em vez de games, jogos virtuais, ela trabalha com o xadrez! Eu vi alguns de seus alunos permanecerem espontaneamente na sala de aula jogando xadrez, ainda que liberados para se divertirem num gigantesco "parque de brinquedos" montado na escola na Semana do Dia das Crianças! Sim, ela poderia inserir as TICs em seu projeto pedagógico... Mas o que é "essencial"? O essencial é o modo como ela trabalha, como ela consegue construir com seus alunos o conhecimento. O uso das novas tecnologias seria nesse caso apenas uma "ferramenta", um "recurso a mais", não a "essencialidade" de sua prática pedagógica!(2)

Investir em uma reflexão a respeito da expansão tecnológica na sociedade, sua função sócio-político-cultural, sobre os modos de apropriação desta tecnologia, interessa a todos nós, professores ou não, trabalhando ou não com tais recursos, interessa-nos enquanto cidadãos. Eu não percebo tanta resistência assim entre os colegas professores em trabalhar com o uso das "novas" tecnologias... e menos ainda em possibilitar aos alunos uma maior autonomia na construção de seu conhecimento (trabalhando com projetos). Optar por uma determinada linha de trabalho agora se chama ser "retrógrado"? Eu chamaria de autonomia e liberdade. O que eu vejo é muito preconceito vindo "de fora", de quem não está envolvido no processo de trabalho das escolas de ensino fundamental e médio...

Para finalizar, outra citação: "Demonizar os professores não é a solução para a educação, mas um movimento na direção da tirania da formação"! Céus, João, espero que bem poucos "daqueles" que querem nos "formar", nos "formatar", nos "capacitar", e que não são professores regentes, (ainda) nos demonizem de fato! rs Tirania da formação? Que venham os tiranos! ;)

Imaculada Conceição

NOTAS:

1 - "Formação de Professores", por João Mattar: Publicado originalmente no Blog De Mattar, em 29 de dezembro de 2011: http://joaomattar.com/blog/2011/12/29/formacao-de-professores/

2 - "Desafios na Rua da Leitura - Profª Marisa Helena CIEP Rubens Gomes 6ªCRE" (19/11/2011), por Imaculada Conceição Manhães Marins - Rioeduca Net - A Revolução Acontece: http://www.rioeduca.net/blogViews.php?id=1518

3 - Fotos: Eu com os meus alunos, da E.M. Mario Piragibe/6ªCRE-RJ, em nossas aulas de "Animação experimental".


domingo, 27 de novembro de 2011

Educação: Novos Paradigmas [1]


Meus alunos da E.M. Mario Piragibe/6ªCRE-RJ
(criando animações)


Aproveitando que comentei na página do Facebook do AnimaEco (um programa da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro - AnimaEco ECO-UFRJ -) um vídeo do professor João Mattar sobre "o uso de games apoiando a educação", vou partilhar meu comentário aqui... [em especial porque aqui eu posso "editar" quantas vezes eu quiser... e já num comentário em página alheia... nem sempre... ]


João Mattar e o uso dos Games apoiando a Educação



João Mattar tem razão quando diz que a diferença dos games de diversão para os games educacionais está no formato e nas intenções daqueles que os programam, os projetam (o educador X o designer de games). Enquanto os primeiros tem o enfoque na interação, no engajamento do(s) usuário(s) nos desafios do jogo em questão, os educacionais pensam primeiro no conteúdo a ser transmitido, aprendido, como "objetivo final" do jogo - o que os tornam bem pouco atraentes e sedutores para os usuários. A meu ver, os jogos educacionais "ainda" estão bem longe de serem (espontaneamente) atrativos às crianças e aos jovens. Se (e quando) conseguirão atrair esse público: é o desafio!

Eu destaquei o "ainda" entre aspas porque vou dar um exemplo de mais de 10 anos (e que não tenho certeza se mudou alguma coisa...) - e do ponto de vista de uma "não-nativa digital" - e só tardiamente "migrante digital" (demorei a entrar no mundo das conexões). Quando eu estudava francês, eu ia com frequência à sala multimídia e usava todos os recursos disponíveis, inclusive os games. Eu já estava na faixa dos 30 e era uma das alunas mais velhas de minha turma. Curiosamente, a sala multimídia não atraia tanto os mais jovens, que, no caso do aprendizado de uma língua estrangeira, preferiam interações na internet e os filmes (um recurso que eu também utilizava). Eu só fazia uso da sala porque precisava "lutar contra o tempo" e dominar a língua o mais rápido possível! Ou seja, ninguém (e nem mesmo eu - que, como disse, tinha o objetivo "adulto" de aprender o mais rápido possível) usava "espontaneamente" esses recursos (que incluía alguns games até interessantes, como um sobre a saga de Joana D'Arc - todas as questões políticas, sociais e religiosas envolvidas...).

Lá se foram bem mais de 10 anos, mas tenho minhas dúvidas se "jogos educacionais" se tornaram atraentes para os mais jovens... Talvez (apenas) como recurso "menos doloroso" e um "pouco mais divertido" para favorecer o aprendizado? Não vejo crianças e jovens (seja em minha experiência como professora, seja em minha experiência familiar) entrarem - sem a cobrança dos professores e/ou pais - "espontaneamente" em jogos educacionais do mesmo modo que buscam os games não-educacionais... Sem contar que as mídias em educação, as novas tecnologias, estão na maioria das vezes sendo usadas apenas como um recurso de apoio às aulas tradicionais.

O desafio de mudança está na estrutura da escola e do sistema educacional bem mais do que - como se imagina - na nova postura de abertura - e capacitação tecnológico-educacional - dos professores (já que muitos deles são jovens, fazem parte de uma geração de usuários de novas tecnologias: dos games, das redes sociais etc.)! Por que esses jovens professores se mantêm tão "tradicionais" em sala de aula (mesmo quando buscam fazer uso das novas tecnologias)? É uma questão para se pensar...


Imaculada Conceição Manhães Marins

NOTA:

1 - Ver também: "Educação: Novos Paradigmas [2]": http://imaculadacon.blogspot.com/2012/01/educacao-novos-paradigmas-2.html