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quarta-feira, 20 de julho de 2011

QUE ASSUNTO!



[ Um texto com mais um assunto interessante que achei na net... Agora, não estou muito a fim de pensar sobre, mas... quis publicá-lo (reproduzi-lo, mais precisamente) - já que não tenho postado os meus próprios escritos... - para um dia, quem sabe, eu o relendo... não me venha alguma ideia? (1) ]



Qual será o destino da sua alma digital?





Por Sumit Paul-Choudhury, da New Scientist
• Segunda-feira, 18 de julho de 2011 - 10h17


São Paulo - É um fato inexorável, como a própria morte. Com a popularização das redes sociais, cada vez mais detalhes do nosso dia a dia ficam registrados no ciberespaço. São informações variadas: desde um rápido registro no Twitter sobre o cardápio do almoço até uma foto postada no Facebook depois daquela animada noitada.

No ano passado, dois terços dos americanos armazenaram dados pessoais num servidor na nuvem, enquanto metade deles usou algum tipo de rede social. Eles publicaram textos e fotos que representam relacionamentos, interesses e crenças. De certa forma, esses dados mostram quem somos. Hans-Peter Brondmo, chefe de software social e serviços da Nokia, costuma chamar essas informações de "alma digital". Muita gente ainda não se deu conta, mas somos a primeira geração a criar um vasto legado digital. E nem todo mundo sabe ao certo como lidar com ele.


Extra: Sites permitem deixar testamentos na web

Até o final deste ano, mais de 250 mil usuários do Facebook vão morrer. Graças ao baixo custo de armazenamento, a alma digital dessas pessoas tem o potencial de ser imortal. A pergunta que fica é: queremos mesmo que tudo o que fizemos online - comentários intempestivos, fotos tiradas por celulares ou hábitos de navegação embaraçosos - esteja preservado para a posteridade? A discussão divide opiniões. Os chamados "preservacionistas" acreditam que devemos isso aos nossos descendentes. Eles são contestados por aqueles que ficaram conhecidos como "deletionistas", que defendem que a internet precisa aprender a esquecer. Os dois grupos estão caminhando para uma disputa sobre o futuro da web - e o que está em jogo é o destino de nossas almas digitais.

Já existem entusiastas que tentam garantir que nosso legado digital continue vivo para sempre. Um deles é Jason Scott, cineasta americano que tentou salvar informações do Geocities, vasta coleção de sites pessoais. Criado em 1994, o serviço permitia que qualquer pessoa criasse uma página na internet, geralmente usando um clipart brega, efeitos exagerados em textos e templates que parecem amadores para os dias de hoje. Com o lançamento de novos serviços, o Geocities acabou perdendo espaço e foi abandonado pelos usuários. Em 2009, depois de mais de uma década de negligência, o Yahoo!, dono do site, decidiu acabar com a maior parte das páginas. A ameaça horrorizou Scott. Ele e outros "preservacionistas" resgataram às pressas a maior quantidade possível de páginas do Geocities e criaram um arquivo de 641 GB que circulou em redes de troca de arquivos antes de ser republicado no endereço reocities.com.

Mas por que essa preocupação em salvar informações sem relevância para a maioria das pessoas? Para Scott, a resposta é simples: trata-se de uma parte da história que poderá ser estudada por sociólogos, arqueólogos e antropólogos. O Geocities é uma cápsula do tempo gigantesca que mostra a infância da web. Mais importante, o caso mostra que outros sites devem (e certamente vão) seguir o mesmo caminho do Geocities. Qualquer empresa de tecnologia pode ser rapidamente superada por competidores ou abandonada pelos clientes. Tome como exemplo o caso da IBM, da Microsoft e do Orkut, que já foram considerados os maiorais em seus mercados. Hoje, empresas como Facebook fornecem serviços gratuitos e armazenamento em seus servidores. Em troca, registram suas atividades online e vendem publicidade usando as informações pessoais fornecidas no cadastro. O problema é que, um dia, a empresa de Mark Zuckerberg pode encontrar novas maneiras de ganhar dinheiro - e, com isso, optar por deletar suas fotos pessoais.

Para evitar que seus dados pessoais fiquem na mão de terceiros, surgiu uma nova categoria de redes sociais que ajuda a organizar informações pessoais enquanto garante que manteremos o controle sobre elas. A Diaspora, de São Francisco, é uma das empresas que vêm ganhando muitos usuários nos Estados Unidos. Seu diferencial? Dados, fotos e vídeos rodam em servidores mantidos pelos próprios usuários. É completamente diferente do Facebook, que é dono dos seus servidores e, logo, controla tudo no seu perfil. A desvantagem da Diaspora e das outras redes sociais do tipo "faça você mesmo" é que você precisa manter o servidor em funcionamento. Se ele travar, seu legado digital poderá desaparecer rapidamente.


Direito de ser esquecido

Ainda que tenhamos mais controle sobre nossos perfis, será que devemos buscar a qualquer custo essa necessidade de preservar? Nem sempre. "O esquecimento faz parte do cérebro humano", diz Viktor Mayer-Schönberger, do instituto de internet de Oxford, no Reino Unido. "Desenvolvemos maneiras para preservar somente as nossas memórias especiais." Hoje, é mais rápido e fácil salvar todos os pequenos bits dos nossos rastros digitais do que analisá-los e eliminar o que não queremos. Em outras palavras, estamos produzindo mais memórias do que podemos lidar.

As consequências de lembrarmos tudo o tempo todo podem ser desastrosas. O Facebook vem testando esporadicamente a função "histórias memoráveis". De quando em quando, o site exibe atualizações antigas de status escrito por você ou por um amigo. A reação, claro, foi de espanto. Alguns usuários não sabiam o que fazer com essa repentina volta ao passado. Às vezes, fica até difícil lembrar-se do que se trata o assunto. Em outras, o post traz à tona algo que seria melhor não lembrar, como o final traumático de um relacionamento. Existem casos ainda mais graves. “Uma mulher contou num programa de rádio que a sua condenação criminal foi revelada online”, disse Mayer-Schönberger. “Foi um post que um conhecido fez.” É difícil perdoar quando você não pode mais esquecer.

Em seu livro Delete, Mayer-Schönberger propõe a criação de uma tecnologia que esqueça graciosamente algumas informações. Arquivos podem ser publicados com data de validade para que sumam num dado momento. Algumas empresas começaram a testar a ideia. Em janeiro, uma startup alemã chamada X-Pire lançou um software que deixa você colocar data de validade nas fotos publicadas em sites como Facebook. No dia definido, as imagens ficam invisíveis. Isso significa que seus amigos vão poder ver as fotos na manhã seguinte à noitada animada, mas você não vai precisar se preocupar se um chefe procurar pelo seu nome anos depois.

Se não podemos apagar os dados, podemos escondêlos. Em fevereiro, depois de várias reclamações para a agência de proteção de dados da Espanha, um tribunal determinou que o Google removesse 100 links de sua base de dados por conter artigos de jornais e registros públicos desatualizados. O Google se recusou a obedecer, mas o "direito de ser esquecido" está definido como meta na estratégia de proteção dos dados da União Europeia de 2011.
Isso significa que novos e maiores casos devem acontecer. As memórias que estamos deixando para trás - tuítes embriagados, fotos com o cabelo desgrenhado - podem ser tornar um baú de ouro a ser explorado e estudado por historiadores durante muitos anos. A internet de hoje retrata a raça humana como nunca antes na história.



NOTA:



segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

"NA CULTURA DIGITAL, TUDO SE RE-CRIA?"



Vik Muniz




Debate: YouPix - Na cultura digital, tudo se re-cria?(*)






Baile Parangolé - João Brasil(**)





(*) Link do vídeo "Debate: YouPix: Na cultura digital, tudo se re-cria?":
Ver também:

(**) Informações sobre a música de João Brasil (vídeo/YouTube):
WWW.MYSPACE.COM/JOAOBRASIL : "Meu baile-funk" homenagem a Caetano Veloso, seu livro "Verdade Tropical" e todo o movimento tropicalista.
Músicas usadas - Samples list:
Tropicália - Caetano Veloso
Zanzibar - Edu Lobo
Nega do cabelo duro - Luiz Caldas
Swing da cor - Daniela Mercury
Por trás de brás pina - Guinga
Não se acabou - João Donato
Biotech is Godzilla - Ratos de Porão
Panis et circenses - Mutantes
Bocochê - Viniciu de Moraes e Baden Powell
Dançando Calypso - Calypso

domingo, 14 de março de 2010

CHATROULETTE: A SORTE ESTÁ LANÇADA!


Imaculada Conceição

Nunca tinha ouvido falar em Chatroulette aqui no Brasil! E se não fosse eu seguir uns franceses no Twitter, creio que ia demorar muito ainda para ouvir falar nisso...

Não, não foram os franceses que criaram, mas a ideia "chatroulette" até que tem um ar (filosoficamente) bem francês. E eu creio que seja por isso que eles tem "tweetado" bastante e escrito diversos artigos sobre(1). O que acabou despertando minha curiosidade...

Chatroulette é um site que permite aos internautas conectarem-se pela webcam aleatoriamente com qualquer outro do mundo inteiro (que esteja no momento também conectado ao site). Devo dizer que não é nem de longe algo que me atraia. Primeiro, meu laptop (meu único computador no momento) é modelo antigo, daqueles que não tem uma webcam embutida (ela veio avulsa e eu a sequer tirei da embalagem!). Imagina eu aparecer toda descabelada (ao contrário de um de meus avatares no Orkut)???!! Ou, então, com cara de poucos amigos, nada sorridente - ao contrário de alguns de meus outros avatares em mídias sociais -, querendo morder o primeiro que me apareça??!! Ora, eu escolhi aquelas imagens a dedo para parecer sempre agradável - e não “aparecer” com meu gênio do momento! rs (o que não adianta muito porque minhas palavras são minha face...)!


Não, não... Isso é coisa para os mais jovens que curtem uma relação mediada por webcams...

Aliás, foi um garoto russo de apenas 17 anos quem criou este novo - e polêmico - fenômeno da net, que já ganhou milhares de adeptos no mundo inteiro em tão poucos meses (foi criado em novembro de 2009) - e até uma pesquisa acadêmica nos EUA! Andrey Ternovskiy diz ter criado o site despretensiosamente, apenas para se divertir e oferecer diversão aos moleques de sua idade, que curtem um chat amizade e xeretar bizarrices na Net!

A idéia é simples, trata-se de um "chat roleta"(2): quando o cara clica em “play”, a sorte é lançada: e vai cair aleatoriamente em alguém conectado ao site! Através de suas webcams, eles conversam ou simplesmente se olham ou fazem um show qualquer de exibicionismo! Se o internauta não gostar de quem está vendo - ou do “que” – já que por lá aparece de tudo, desde pessoas querendo simplesmente bater um ingênuo papo ou apenas dizer um “olá!” até exibicionismo sexual, pedofilia, propaganda nazista e as mais surreais bizarrices do mundo – o que torna o site com justiça condenável por muitos(3) -, basta clicar em “next” e a roleta irá novamente rodar, fazendo cair num outro acaso qualquer conectado...


Quem já experimentou diz que é um tal de “next, next, next, next...”, ninguém tem paciência de interagir por muito tempo – até porque, como eu disse, nem tudo que cai lá é agradável o suficiente... -; as pessoas ficam logo curiosas de ver onde vai tombar a próxima jogada!

Enfim, o que me fez sentir vontade de escrever algumas palavras sobre um site que sequer acessei e sequer pretendo acessá-lo é que achei bastante curiosa esta nova loucura obsessiva do mundo online! Por que será que as pessoas acham atraente deixar que a aleatoriedade do acaso escolha para elas seus companheiros de interação?

Talvez por que no final das contas todo encontro seja mesmo um tanto aleatório? ...mistura incerta de acaso e destino...

*


Só hoje (14/03/2010), assim terminei de escrever o rascunho desta postagem, é que li o primeiro texto em português sobre Chatroulette(4). Uma reflexão bem interessante de um cara que narra sua experiência com o site e tenta fazer umas relações filosóficas com o pensamento de Foucault. Vale a pena ler!

Já entrar no site Chatroulette... se você tem boa saúde, não tem estômago frágil e nem tendência a pesadelos à noite... Quem sabe?



NOTAS

(1) É só entrar no http://owni.fr/ e procurar pela tag “chatroulette” para ler vários artigos interessantes sobre (ou referências remetendo a outros sites com artigos pertinentes).

(2) Chatroulette quer dizer: “chat” – aqueles dos bate-papos online – e "roulette" – roleta.

(3) Escreve Vicente Glad (tradução não literal): "Chatroulette não é um site não indicado aos menores de 18anos. Isso seria muito limitativo. Chatroulette não é recomendado aos menores de 18 anos, às pessoas de idade, aos cardíacos, aos tímidos e, pra ser mais geral, a todos aqueles que ainda creem em uma humanidade digna"! Muito bom este texto: "Chatroulette, le grand frisson du Net", Vincent Glad http://www.slate.fr/story/16803/chatroulette
Neste artigo, o autor relaciona alguns dos motivos que fariam o sucesso do site Chatroullet e ainda tece um interessante parelelo com a filosofia de Emmanuel Levinas.

(4) "Chatroulette", postado por Andre Lemos no Blog Carnet de Note (em 21/02/2010): http://andrelemos.info/2010/02/chatroulette/

O autor cita um artigo do New York Times - de onde ele diz ter ouvido falar pela primeira vez sobre Chatroulette - "The Surreal World of Chatroulette" http://www.nytimes.com/2010/02/21/weekinreview/21bilton.html?partner=rss&emc=rss

(5) Uma curiosidade (li hoje na net: 14/03/2010): os brasileiros já "piratearam" Chatroulette: temos uma versão tupiniquim chamada Cata Papo! Li aí neste site (onde há também o link de acesso a Cata Papo): http://info.abril.com.br/noticias/internet/chatroulette-e-copiado-por-brasileiros-13032010-10.shl


domingo, 29 de novembro de 2009

PÁSSARO AZUL, PAREDES RABISCADAS, PORTAS DE BANHEIRO, MUROS PICHADOS, O VAZIO ETERNO DESTES SITES INFINITOS...

[ ...algo que eu quero (agora) escrever... (parte II) ]




O silêncio eterno desses espaços infinitos me apavora (Blaise Pascal)



[3]



Imaculada Conceição

Faz alguns dias e eu tweetei pela primeira vez[1]. Eu não pretendia "seguir" mais esta... moda? Uma colega professora me perguntou: você tem o twitter da secretária de educação? Dizem que ela [ou a equipe] sempre responde! Eu estava com uma dúvida que colega professor nenhum conseguia me dar a resposta. Bem, não era pra tanto perguntar à secretária de educação de nosso município – até porque acabei me virando na resposta em questão -; por isso, não vi, a princípio, nenhum interesse em entrar pro Twitter (além do mais, de meus contatos do mundo presencial, poucos estão lá, e dos que estão, ainda menos são os que tweetam com frequência).
Um dia, porém, a curiosidade tomou conta de mim, fui até o site, coloquei minha conta do Google/Gmail (pra adicionar contatos) e lá estava eu, “seguindo o pássaro azul”...

Falei aqui sobre Twitter por conta de meu texto anterior sobre correspondências internautianas (clique aqui). Lá, eu falei sobre ter um interlocutor que poderia ser dito virtual, sem, no entanto, sê-lo de todo, já que se trata de uma pessoa (mesmo quando esta é dissimulada num “fake”, ainda assim é uma pessoa... apenas exercendo sua capacidade “fraudulenta”) real, de carne, osso, sangue, sentimentos, dores, alegrias, tristezas, dúvidas etc., do outro lado da fala. Mas acabei não falando: e quando escrevemos em lugares como, p.ex., este aqui, um blog - que talvez seja lido por alguém, talvez... por ninguém?

Enviar e-mail, bater papos em sites de relacionamentos etc. tem um interlocutor “real” (a não ser que seja spam ou um daqueles “e-mails boatos”, que levam um leve terror à população, como uma “lenda urbana”... estes se dirigem a quem abrir e ler... qualquer um... ninguém...); mas, e escrever em sites e blogs ou microblogs (como o Twitter)? Há uma virtualidade no fato que é apenas uma possibilidade o ouvinte de nossa fala. Quantos textos, quantas milhares de imagens não estão por aí, navegando perdidos nos espaços infinitos da internet? Certo, há sites e blogs com um público específico (e fiel, como nas comunidades online); e no Twitter muitas vezes nos dirigimos a alguém em particular, mas, ainda assim, grande parte do que está por ai (e por aqui) dirige-se a um público “possível” (verdadeiramente, virtual!).


Ora, não haveria aí também uma similaridade com nossas vivências precedentes, anteriores ao mundo das virtualidades digitais? Crianças, idosos, doentes mentais, prisioneiros, vândalos, artistas etc. muitas vezes gostam de tomar paredes e mais paredes com suas palavras, garatujas, desenhos, signos... Poetas e escritores escrevem muitas vezes pra “ninguém”. Escrevem e rasgam. Ou engavetam... Esta vontade humana de se expressar, de falar, de escrever (neste caso, certo, depois do mundo letrado e para os que tiveram a sorte de se tornarem letrados) não é nova! Mudaram os meios? Talvez só isso... As pessoas falam em “revolução da internet”, do mundo digital, virtual etc., mas eu só vejo uma continuação de nossa humanidade. (Inter)Relação ou simbiose homem-máquina? Sim. Algumas vezes... Mas o que ainda é mais forte é a relação homem-homem e a máquina intermediando. Ou é o homem com ele próprio. Ou é o homem com outro humano...

Escreve-se “para ninguém” - ou "pra qualquer um" - quando se enchem paredes etc. Como quando se é criança – eu mesma, em quantas paredes não deixei minhas garatujas? -, ou em alguns casos da velhice avançada... - como minha mãe já idosa(4) pelas paredes da sala de estar; como os confinados (ou não) nos manicômios, como os detentos em suas celas, como os pichadores dos muros urbanos, como o anônimo em seu ato solitário que senta no vaso de um banheiro público e deixa lá, na porta, seus registros gráficos – misto de vandalismo, poesia, desabafo, necessidade básica da natureza humana de se expressar, de se comunicar com não importa quem...



Já me diverti (e refleti) muito lendo o que esses "poetas do anonimato" escreveram. Na faculdade de filosofia do Rio (IFCS/UFRJ), p.ex., na época em que estudei por lá, as portas dos banheiros eram plenas de reflexões, entre outras banalidades comuns a todos nós humanos (declarações de amor, manifestações de tesão, doçuras, sonhos, perversões...). Lembro de uma ocasião em que um artista plástico levou umas portas de banheiros (acho que da Central do Brasil, mas não tenho certeza... faz tempo...) para expor. Na exposição teve público leitor certo. Mas o cara que escreve nas portas dos banheiros públicos escreve “para ninguém” e “para todo mundo”. Desabafam, refletem, poetizam, xingam, criticam, erotizam, enviam recados... É apenas a vontade humana de se expressar, falar, gritar...


Assim como é uma vontade humana ouvir o que o outro tem a dizer. Pode ser que aquela imundice vândala não seja nem lida por ninguém, mas você põe o traseiro no vaso e lá estão as palavras, os desenhos, os signos, os rabiscos, os grafites etc. gritando pra você! Alguém lerá...
Em algum momento a imundice vândala de uma pichação urbana te tocará...




Certa vez, me emocionei muito ao ler, de dentro de um ônibus, escrito no alto de uma das paredes do Cais do Porto do Rio, uma sequência de banais pichações que terminavam com esta singularidade: “amanhecendo”... Pensei neste momento do solitário pichador. O fim da parede, o fim da escuridão da noite que o protegia da ilegalidade de seu vandalismo, o fim de suas palavras, de sua fala... por ora...


Eu, particularmente, nunca tive vontade de deixar um único ponto num desses espaços inusitados da fala humana - ao menos, não depois de adulta... Quando criança, sim. Eu escrevia pelas paredes de minha casa, pelos muros, eu deixei uma poesia no telhado quando consegui subir até lá... Eu escrevia cartinhas pra Deus. Eu as colocava atrás da "Santa Ceia", que ficava sob a mesa das refeições familiares. O quadro, uma reprodução da obra de Leonardo Da Vinci, graças a uma inclinação de alguns graus, aguentou o quanto pode minhas palavras ao Santíssimo. Um dia, porém, o bendito quadro tombou, derramando numa imundice só dezenas de bilhetinhos e cartas pelo chão da cozinha. Minha mãe respeitou, não leu, quis apenas saber de quem era a traquinagem!
Ficando eu proibida, a partir de então, de usar o “espaço sagrado”, passei a enterrar minhas correspondências ao Divino no canteiro de nossa casa. A infância se foi, mas a vontade de escrever (e ler o que as pessoas escrevem), não. Às vezes, é vontade de escrever para um “público certo”, para um interlocutor (ou interlocutores) definido, às vezes, é vontade de escrever “pra ninguém”... ou pra quem aparecer... e ler...


Eu coloco: “Bom dia, twitteiros!”: a quem me dirijo? A todos que me “seguem’’? Ou a ninguém? E aqueles a quem eu sigo quando escrevem? ...não importa... o que importa? Vou lendo os tweets que me chegam (e escrevendo os meus) como frases nas portas dos banheiros públicos... como as pichações nos muros da cidade, nos bancos dos coletivos urbanos... como as paredes dos manicômios... casas que tem crianças e velhos... as celas dos presídios... blogs, sites e demais sítios online que carregam milhares e milhares de palavras, imagens, informações... Eu escrevo neste blog, eu tweeto no meu microblog palavras... palavras... palavras... palavras... palavras... Paredes, muros, portas de banheiro virtuais...[2] Eu (per)sigo o pássaro azul...

[ O pássaro azul do Twitter ]


[ O Pássaro Azul, peça de Maurice Maeterlinck (L’Oiseaux Bleau); aí na imagem, a versão americana (The Blue Bird) filmada na década de 40 com Shirley Temple e os efeitos especiais de um cara que entrou pra história da animação, Walter Lang. Vi este filme quando criança, na Sessão da Tarde, e o revi há alguns meses, na companhia de minha mãe - que era fã do filme e da protagonista, cujos cachinhos ela tentava reproduzir em meus louros cabelos de menina -, um pouco antes dela falecer... Hoje, 24/11/09, dia em que escrevo este texto, faz exatamente três meses... ]


NOTAS:

[1] Manuscrevi este texto em 24/11/2009 (pouco depois de tweetar pela primeira vez em 19/11/09), e o postei no blog, salvando-o como rascunho, em 29/11/09. Mas só hoje, 25/01/2010 é que o tornei público - embora a data que conste seja ainda a do rascunho feito em 2009! É verdade que eu podeira (re)postar com a data atualizada, mas... achei legal esta do blog de preservar a data em que postamos o texto pela primeira vez.

[2] Recentemente, uma colega professora me enviou um manual online sobre o Twitter - “Tudo o que você precisa saber sobre o Twitter (você já aprendeu numa mesa de bar)” - e eu achei o site “Twitter Brasil” [clique nas imagens laterais para entrar nos sites], neles descobri – e no próprio Twitter – umas definições bem divertidas: “Twitter é, no final das contas, uma mesa de bar”; “É um radar captando o que milhões de pessoas estão pensando/fazendo naquele momento; “É um confessionário em praça publica”; “É como um pátio de hospício, cada um falando ‘sozinho’, eventualmente alguém responde”; “É fruto do amor proibido entre o scrap do Orkut e o MSN” etc. etc. etc. Vejo que tem de tudo por lá, de autopromoção a propaganda (velada, mas nem tanto) política - aliás, há um verdadeiro bombardeio de propagandas dos mais variados produtos e serviços -; de citações literárias e filosóficas a "pornopiadas"; de links educativos ou informações úteis a bobagens inúteis - embora algumas vezes divertidas! -; de notícias de última hora a jornalismo tardio; enfim, todo tipo de divulgação, confissão, desabafo, provocação, palavras poéticas, passos da rotina diária, pessoal ou profissional - que muitas vezes se mesclam, numa mistura de público e privado - etc. etc. etc. 
Por isso as definições dos que usam o Twitter são muitas... mas minha primeira impressão - assim entrei - foi esta, a da correlação entre os grafismos e escritos espalhados pela cidade – seja nos espaços coletivos da urbanidade, seja no espaço privado de nossos lares, celas etc. - e tudo que é lançado na imensidão destes espaços infinitos, a Internet...

[3] Para quem não conhece, esta é uma das falas do Profeta Gentileza (José Datrino) de seu “livro urbano”, cujas páginas foram escritas nas pilastras de um viaduto no Centro do Rio. Eu cheguei a pegar várias vezes ônibus com ele pro Centro, na Av. Brasil, no ponto do bairro onde moro (e ele morou por uns tempos...). Uma figura enigmática, com sua túnica branca e imagens coloridas, sua longa barba, seu discurso mítico-místico, seu profético estandarte...

[4] "Velhice avançada"? Esta quarta nota, acrescento agora, em 2010, só pra dizer que, após a morte da mãe de Roberto Carlos, aos 96 anos, e da mãe de Chico Buarque de Holanda, aos 100 anos, vejo que minha mãe era até "nova" quando faleceu, já que, pela idade, bem poderia ter sido filha de uma delas!


Imaculada Conceição







domingo, 22 de novembro de 2009

...algo que eu quero (agora) escrever...



Imaculada Conceição


Tenho o que Nietzsche definiu ser um “espírito grosseiro”! Em tudo e em todas as coisas vejo antes o “universal”, o que compartilhamos, o que temos “em comum”, a similaridade etc., do que a “diferença”, o que nos distingue, o que nos diferencia, portanto, o que nos “separa”. Não que eu não seja capaz (creio...) de ver ou de admirar a “diferença” e a “multiplicidade” (conceitos caros a Nietzsche, tanto quanto aos pensadores pós-modernos e outros viés daqueles que pensam nossa contemporaneidade), mas meu espírito vai logo procurando (e achando) algo que me faz, que nos faz “irmãos do sol e da lua” (como diria São Francisco de Assis). É assim que eu não encontro muita diferença entre “conversar” ou “corresponder-me” em um mundo que se convencionou chamar “virtual” (o da internet, p.ex.) e o mundo real (chamado presencial)! Afinal, que diferença (“essencial”!) há entre o hábito de manter correspondências, que as pessoas trocaram durante séculos e séculos, pelos mais diversos meios, e, agora, os trocados pelos e-mails, pelos recados nos sites de relacionamentos (Orkut, Twitter, MSN, Myspace, Facebook etc.) etc.? Assim como no habito de muitas vezes se preservar (“salvar”) tais correspondências em pastas, “doc.”, sítios on-line etc., como antes estas correspondências eram guardadas em gavetas, baús etc.? Sim, há diferenças (nos “meios” empregados), mas a essência desta elementar necessidade íntima dos humanos de se corresponderem, se comunicarem, trocarem afetos, experiências, informações etc. ainda permanece “a mesma”, não? Espanta-me quando alguém diz “esqueça isso aqui, vá procurar seus amigos reais!”! Como se conversássemos com máquinas, programas de computadores ou com os personagens meramente ficcionais de jogos virtuais on-line, e não com gente (de verdade, de carne, osso e sangue, com um corpo, sonhos, dores, alegrias, tristezas, contradições, dúvidas etc.) do “outro lado”... ...do outro lado... ...do outro lado...

[...infelizmente não são todos os humanos que têm acesso a esta possibilidade de nosso mundo contemporâneo de trocas, de intercâmbio, de comunhão...] ...do outro lado...

Talvez seja meu espírito por demais “grosseiro” mesmo, pois não me deixa ver grandes diferenças e me faz insistir em chamar este mundo AQUI também de real! Sei que não sou a única... mas sei também que ainda causa um certo estranhamento em muita gente o fato deste mundo de mediações internautas - que chegou a ser definido de “virtual” - ser apenas mais uma face de nosso mundo real!