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sábado, 7 de janeiro de 2012

Educação: Novos Paradigmas [2]




Meu comentário ao texto de João Mattar: Formação de Professores

[ Originalmente um comentário informal(*) à postagem de João Mattar(**), em seu blog sobre cursos de formação de professores.(1)
Como, noutro dia, postei aqui um comentário que fiz - Educação: Novos Paradigmas 1 - de seu vídeo, que fala do uso de games na educação... achei que seria interessante postar este comentário também... ]

Imaculada Conceição




Hoje estava andando pela praia e me veio à cabeça este grande insight, rs: “formação de professores” é a expressão politicamente correta, que inclusive uso, mas dá uma sensação de que os professores são deformados, não? De que temos uma forma pronta para formatar todos. Caberia perguntar aos professores se eles querem ser “formados” e, principalmente, para que forma.

A expressão politicamente correta em inglês, hoje, é Professional Development, que está mais próxima do campo semântico de aperfeiçoamento do que de formação.

Mas tem outro grande insight, mais antigo: é incrível como hoje todo mundo se considera preparado e capaz de formar professores no uso de tecnologias me educação (às vezes só porque sabe mexer em um software ou é apaixonado por tecnologia), todo mundo tem um coelho na cartola, um curso prontinho na cabeça, uma ideia de como os professores devem ser, em que eles devem se transformar, um discurso pronto sobre a “resistência” dos professores, um clichê sobre a zona de conforto, o que está errado na educação, uma revolução!

Todo mundo é capaz de rabiscar uma rota de formação de professores em minutos, seguro de que aquele é o melhor caminho, sem mesmo ter dado aula ou tendo tido um mínimo contato com alunos.

Mas valeria a pena ouvir só um pouquinho os professores, não? Saber o que eles querem, do que eles precisam. Este é um dos princípios do design educacional: analisar os aprendizes e seu contexto. Mas não, queremos mudar, enxergamos perfeitamente (de fora) o que está errado e como as coisas deveriam ser, ignorando o que os próprios professores pedem – afinal, se as coisas estão erradas, eles por consequência pedem errado, querem naturalmente continuar com o status quo, qualquer demanda deles é um sinal de resistência, e é preciso mudar, mudar para a nossa visão.

Cabe saber se queremos formar o outro, de acordo com as suas necessidades, ou reformar a nós mesmos, projetando no outro o que queremos mudar em nós. Mas o princípio básico da alteridade diz: eu sou eu, o outro é o outro.

Nunca estamos prontos, somos metamorfoses ambulantes, mas não precisamos necessariamente nos transformar no sonho dos outros. Nossa visão tem também que ser ouvida. Demonizar os professores não é a solução para a educação, mas um movimento na direção da tirania da formação.

Meu comentário ao texto de João Mattar:
Formação de Professores(*)


João, sob esta perspectiva que você citou, pior do que "formação" é "capacitação" (os cursos atuais para os educadores do Rio tem esse nome): seríamos então... "incapazes"? Na verdade, João, eu me importo bem pouco com a nomenclatura que dão aos cursos de "aperfeiçoamento profissional" (como você bem citou, uma nomenclatura boa, mas creio que não usada para evitar confusão com as "Pós" assim denominadas) que nós, professores, recebemos! Participo dos cursos de formação, das capacitações... e o que mais aparecer! Neles aprendemos bem mais do que o "conteúdo" oferecido (que às vezes não acrescentam quase nada ou são "nulos" para nossa real prática em "sala de aula")! Temos contato com outros colegas professores: e só isso já vale! É inacreditável como, não importa qual a estrutura da escola em que trabalhamos, se temos mais ou menos recursos disponíveis, mais ou menos liberdade/autonomia dentro dos espaços escolares, se a escola fica na periferia ou nas áreas centrais e "nobres" da cidade... Parece que os nossos problemas semelham... Alguns estão "tão desanimados" que confessam já terem "jogado a toalha", "desistido" da educação... mas, passa um tempo e... os reencontramos animados e confiantes, apresentando seus novos projetos! "Nós somos professores (brasileiros) e não desistimos nunca"! rs

Aliás, em falar em sala de aula, em prática pedagógica (em especial, no ensino fundamental e médio - e, mais especificamente, no ensino público), cito a frase que mais me chamou atenção aqui no seu texto (e a que mais gostei): "Todo mundo é capaz de rabiscar uma rota de formação de professores em minutos, seguro de que aquele é o melhor caminho, sem mesmo ter dado aula ou tendo tido um mínimo contato com alunos"! O mais assustador é quando nós, professores, que sabemos o que é educar em uma escola (todas as dificuldades reais!) construímos discursos que parecem ter sido feitos para "agradar" os caras que querem montar todo um esquema vindo "de fora"... A escola ainda é construída de modo a não nos permitir plenamente trabalharmos com projetos que possibilitem uma maior autonomia e conexão colaborativa entre nós, professores, e nossos alunos. Na maioria das vezes, o que conseguimos realizar dentro dos "novos paradigmas" educacionais acaba sendo nas atividades extra-classes (ou em projetos que - infelizmente - não abrangem todas as nossas turmas, durante todo o ano letivo).
O que é a "escola de fato"? Espaços/tempos (de)limitados = grade curricular/carga horária/(infra)estrutura construída de modo a não favorecer plenamente as "inovações" educacionais...

É preciso só um cuidado: há os que pensam que bastaria mudar toda a estrutura "arquitetônica" e inserir aulas com uso de TICs em salas ambientes bem equipadas para já estarmos trabalhando dentro de um "novo paradigma educacional"! Qualquer professor do ensino fundamental e médio que já trabalhou ou que conhece quem trabalha numa escola "com todos esses recursos" (ou que tem filhos, parentes ou filhos de amigos que lá estudam) sabe que não é bem assim... Eu estive numa reunião numa dessas escolas e fiquei tão encantada com seu "arquitetônico estilo futurista", que cheguei para um professor, que leciona nela, e disse: "Cara, você trabalha no paraíso!" - e ele me respondeu com ar desalentado: "Nem tudo é o que parece..."! Senti-me no filme Matrix!!!!

A "tecnologia pode trazer transformações importantes", sim, mas ela não é tudo... Eu conheci recentemente uma professora que trabalha com métodos tradicionais de alfabetização, e cujas as vagas para sua turma são concorridíssimas dentro da escola! As crianças que não conseguiram aprender a ler e a escrever em anos anteriores em outras turmas (e que estão com defasagem de idade/série) são pela professora alfabetizadas! Ela incentiva a leitura de livros e escritos "tradicionais" (e tem um projeto excelente, chamado "Rua da Leitura")! Em vez de games, jogos virtuais, ela trabalha com o xadrez! Eu vi alguns de seus alunos permanecerem espontaneamente na sala de aula jogando xadrez, ainda que liberados para se divertirem num gigantesco "parque de brinquedos" montado na escola na Semana do Dia das Crianças! Sim, ela poderia inserir as TICs em seu projeto pedagógico... Mas o que é "essencial"? O essencial é o modo como ela trabalha, como ela consegue construir com seus alunos o conhecimento. O uso das novas tecnologias seria nesse caso apenas uma "ferramenta", um "recurso a mais", não a "essencialidade" de sua prática pedagógica!(2)

Investir em uma reflexão a respeito da expansão tecnológica na sociedade, sua função sócio-político-cultural, sobre os modos de apropriação desta tecnologia, interessa a todos nós, professores ou não, trabalhando ou não com tais recursos, interessa-nos enquanto cidadãos. Eu não percebo tanta resistência assim entre os colegas professores em trabalhar com o uso das "novas" tecnologias... e menos ainda em possibilitar aos alunos uma maior autonomia na construção de seu conhecimento (trabalhando com projetos). Optar por uma determinada linha de trabalho agora se chama ser "retrógrado"? Eu chamaria de autonomia e liberdade. O que eu vejo é muito preconceito vindo "de fora", de quem não está envolvido no processo de trabalho das escolas de ensino fundamental e médio...

Para finalizar, outra citação: "Demonizar os professores não é a solução para a educação, mas um movimento na direção da tirania da formação"! Céus, João, espero que bem poucos "daqueles" que querem nos "formar", nos "formatar", nos "capacitar", e que não são professores regentes, (ainda) nos demonizem de fato! rs Tirania da formação? Que venham os tiranos! ;)

Imaculada Conceição

NOTAS:

1 - "Formação de Professores", por João Mattar: Publicado originalmente no Blog De Mattar, em 29 de dezembro de 2011: http://joaomattar.com/blog/2011/12/29/formacao-de-professores/

2 - "Desafios na Rua da Leitura - Profª Marisa Helena CIEP Rubens Gomes 6ªCRE" (19/11/2011), por Imaculada Conceição Manhães Marins - Rioeduca Net - A Revolução Acontece: http://www.rioeduca.net/blogViews.php?id=1518

3 - Fotos: Eu com os meus alunos, da E.M. Mario Piragibe/6ªCRE-RJ, em nossas aulas de "Animação experimental".


domingo, 27 de novembro de 2011

Educação: Novos Paradigmas [1]


Meus alunos da E.M. Mario Piragibe/6ªCRE-RJ
(criando animações)


Aproveitando que comentei na página do Facebook do AnimaEco (um programa da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro - AnimaEco ECO-UFRJ -) um vídeo do professor João Mattar sobre "o uso de games apoiando a educação", vou partilhar meu comentário aqui... [em especial porque aqui eu posso "editar" quantas vezes eu quiser... e já num comentário em página alheia... nem sempre... ]


João Mattar e o uso dos Games apoiando a Educação



João Mattar tem razão quando diz que a diferença dos games de diversão para os games educacionais está no formato e nas intenções daqueles que os programam, os projetam (o educador X o designer de games). Enquanto os primeiros tem o enfoque na interação, no engajamento do(s) usuário(s) nos desafios do jogo em questão, os educacionais pensam primeiro no conteúdo a ser transmitido, aprendido, como "objetivo final" do jogo - o que os tornam bem pouco atraentes e sedutores para os usuários. A meu ver, os jogos educacionais "ainda" estão bem longe de serem (espontaneamente) atrativos às crianças e aos jovens. Se (e quando) conseguirão atrair esse público: é o desafio!

Eu destaquei o "ainda" entre aspas porque vou dar um exemplo de mais de 10 anos (e que não tenho certeza se mudou alguma coisa...) - e do ponto de vista de uma "não-nativa digital" - e só tardiamente "migrante digital" (demorei a entrar no mundo das conexões). Quando eu estudava francês, eu ia com frequência à sala multimídia e usava todos os recursos disponíveis, inclusive os games. Eu já estava na faixa dos 30 e era uma das alunas mais velhas de minha turma. Curiosamente, a sala multimídia não atraia tanto os mais jovens, que, no caso do aprendizado de uma língua estrangeira, preferiam interações na internet e os filmes (um recurso que eu também utilizava). Eu só fazia uso da sala porque precisava "lutar contra o tempo" e dominar a língua o mais rápido possível! Ou seja, ninguém (e nem mesmo eu - que, como disse, tinha o objetivo "adulto" de aprender o mais rápido possível) usava "espontaneamente" esses recursos (que incluía alguns games até interessantes, como um sobre a saga de Joana D'Arc - todas as questões políticas, sociais e religiosas envolvidas...).

Lá se foram bem mais de 10 anos, mas tenho minhas dúvidas se "jogos educacionais" se tornaram atraentes para os mais jovens... Talvez (apenas) como recurso "menos doloroso" e um "pouco mais divertido" para favorecer o aprendizado? Não vejo crianças e jovens (seja em minha experiência como professora, seja em minha experiência familiar) entrarem - sem a cobrança dos professores e/ou pais - "espontaneamente" em jogos educacionais do mesmo modo que buscam os games não-educacionais... Sem contar que as mídias em educação, as novas tecnologias, estão na maioria das vezes sendo usadas apenas como um recurso de apoio às aulas tradicionais.

O desafio de mudança está na estrutura da escola e do sistema educacional bem mais do que - como se imagina - na nova postura de abertura - e capacitação tecnológico-educacional - dos professores (já que muitos deles são jovens, fazem parte de uma geração de usuários de novas tecnologias: dos games, das redes sociais etc.)! Por que esses jovens professores se mantêm tão "tradicionais" em sala de aula (mesmo quando buscam fazer uso das novas tecnologias)? É uma questão para se pensar...


Imaculada Conceição Manhães Marins

NOTA:

1 - Ver também: "Educação: Novos Paradigmas [2]": http://imaculadacon.blogspot.com/2012/01/educacao-novos-paradigmas-2.html



domingo, 10 de abril de 2011

SOLIDARIEDADE



PAZ!



EDUCAÇÃO


E.M. Tasso da Silveira - Realengo - RJ


CORAGEM


... RECOMEÇO ...



VIDA!



NOTA: Hoje, 30/10/2011, achei que deveria acrescentar uma nota a esta postagem esclarecendo o porque dela, visto nem todos que forem vê-la são da Educação ou moram no Rio de Janeiro. Muito se escreveu, muito se falou... Eu, como a maioria dos professores do Rio, não tinha palavras... Por isso a postagem ficou assim... Mas para que as pessoas saibam do que se trata vou indicar aqui uma postagens - que eu mesma fiz em um blog de Educação - onde não há textos e sim áudios da CBN-Brasil com algumas entrevistas sobre o "caso da escola de Realengo". Só como "esclarecimento dos fatos"...

(1) CBN RIO: Entrevista com a Secretária Municipal de Educação, Cláudia Costin (12/04/2011): http://www.rioeduca.net/blogViews.php?id=831
(2) CBN RIO: Entrevista com Gilberto Dimenstein (12/04/2011): http://www.rioeduca.net/blogViews.php?id=833
(3) CBN RIO: Debate Políticas Públicas em Educação (12/04/201): http://www.rioeduca.net/blogViews.php?id=832

terça-feira, 20 de julho de 2010

JÁ QUE NÃO FALEI NO DIA...



Imaculada Conceição



Ontem, comemoramos (antecipadamente) o Dia do Amigo numa escola em que trabalho. Ela fica próxima à escola em que aconteceu a tragédia do menino Wesley, de onze anos, atingido e morto por uma bala ("perdida"!) em sala de aula.(1*) Os professores do Rio estavam de luto! As escolas estavam de luto! Por esse motivo, em nosso Centro de Estudos, os professores ficaram entre a alegria do encontro amigo e as tristezas ao relembrarmos o episódio, sobretudo ao imaginarmos a dor dilacerante e inconsolável dos pais, o desespero dos professores que socorreram a criança, de seus coleguinhas e demais professores e funcionários da escola. E também as possibilidades disso vir a acontecer com qualquer um de nós, cariocas ou não, nós, que habitamos, trabalhamos, construímos nossas vidas, (con)vivemos em áreas "conflituosas"...

Mas não foi pra falar sobre violência e tragédias que escrevo este post! E sim para falar sobre amizade. É que ontem, na reunião do Centro de Estudos, cada professor expressou o que era pra si a amizade. Muitos deram exemplos, citando seus amigos mais queridos, relataram fatos curiosos de como a amizade nasceu, continuou ou se perdeu com o tempo, outros dissertaram sobre o significado do conceito de amizade, uma professora leu uma poesia, e teve até quem falasse sobre a origem do Dia do Amigo (nesta hora, eu me distrai, divertindo-me ao me empanturrar com as guloseimas do encontro: bolos recheados com pasta de damasco, pudim de leite casado com bolo de chocolate, pipocas, bombons, sonhos deliciosos... de modo que se alguém me perguntar qual a origem... hum...).

Olhe, eu disse “me distrai"... sim... eu e todos nós, professores... é como dizia Blaise Pascal, não importa qual grande seja a dor ou a preocupação que nos aflige... logo aparece algo para nos "distrair", nos "divertir" ("desviar": é o sentido etimológico de divertir-se, distrair-se) dos problemas, preocupações, dores etc. "Por mais cheio de tristeza que um homem se encontre, se porventura conseguirmos que entre num divertimento, será feliz durante esse tempo" (PENSAMENTOS: fr.130/Br B. PASCAL).(2)

Bem, e agora eu me distrai da "distração" (que era nossa conversa sobre amizade, além das guloseimas...)! Voltando, então...

Todos falaram sobre amizade, menos eu e outra professora. Mas ela fez melhor do que falar: ela escreveu pequenos cartões com palavras de fé e esperança e nos presenteou ao término do encontro. E eu... Eu fiquei devendo... Por isso decidi escrever este post.

Hoje eu vi na net uma reportagem sobre o episódio do aluno morto e tinha uma foto do pai do menino.(3*) Isso fez eu me lembrar de meu pai, de algo que ele me ensinou sobre a amizade. Não, nenhum paralelo com a triste história deste pai que acaba de perder seu garotinho. Eu apenas lembrei-me do meu pai ao ver a foto de um pai dedicado...

Quando era criança, eu e mais dois irmãos (sou de uma família de sete irmãos, mas só nós três, pela idade aproximada, partilhávamos as mesmas brincadeiras) adorávamos brincar de nos jogar nos braços de nosso pai de algum lugar alto. Subíamos na mureta da varanda ou na pia da cozinha ou na janela da sala e cada um de nós se lançava em seus braços. Até aí, uma brincadeira, acredito, comum entre pais e seus filhos, crianças pequenas...

O que tinha de diferente é que meu pai sempre contava a história de um homem, que se tornou "um grande homem" (se alguém conhece a história, conte-me, por favor, porque eu não lembro quem foi o cara), cujo pai brincava com ele desta mesma brincadeira de se atirar nos braços. Um dia, este pai disse pro filho: "Vem, papai vai segurar", e quando a criança se lançou, o pai o deixou se esborrachar feio no chão! E ainda completou: "Isso é pra você aprender que, se não se pode confiar nem em seu próprio pai que dirá nos outros"! Bela lição! O cara aprendeu e se tornou alguém importante!

Toda vez que nós, eu e meus dois irmãos, íamos nos atirar nos braços de papai, ele repetia as mesmas palavras da história: "Vem, papai vai segurar"! Então, nos entreolhávamos desconfiados e... não resistíamos... nos atirávamos em seus braços! Nem uma única vez papai nos deixou cair! Mas ele sempre nos fazia (re)lembrar a velha história, como quem pergunta: "por que (ainda assim) confiam"?

Bem, meu pai não formou nenhum "grande homem da história"(4), mas tenho certeza que nos deu a mais linda lição sobre a amizade e o amor! Em vez de nos ensinar que não devemos confiar em ninguém, já que até o próprio pai pode trair seu filho, ele nos ensinou que apesar de existirem pessoas que vão nos trair, nos magoar, nos deixar na mão, nos machucar (e estas podem ser inclusive as que mais amamos e confiamos), sempre existirão aquelas que, aconteça o que acontecer, nunca vão nos deixar cair e nos acolherão em seus braços! :)




NOTAS

(1)*"Wesley temia os tiros; morreu com o lápis na mão" (VIOLÊNCIA URBANA): Por Alberto Dines em 20/7/2010: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=599IMQ001

(2)Ou ainda: "Esse homem tão abatido com a morte de sua mulher e de seu único filho e sujeito ao tormento de tão grande dor, por que não está triste neste momento? Não há motivo para estranharmos: acabam de entregar-lhe uma bola e cabe-lhe atirá-la a seu companheiro, ei-lo a pegá-la de modo a marcar um ponto." (PENSAMENTOS: fr.140/Br B. PASCAL).

(3)*"Cabral pede desculpas, mas não vai a enterro de Wesley": Enviado por Jorge Antonio Barros: 18/07/2010 http://oglobo.globo.com/rio/ancelmo/reporterdecrime/posts/2010/07/18/cabral-pede-desculpas-mas-nao-vai-enterro-de-wesley-309066.asp

(*1 e *2)Os links levam a textos que vi na net na ocasião, cito-os apenas pelas "imagens" e pela referência ao fato, e não por qualquer outro motivo...

(4)Ao menos meu pai viu suas crianças crescerem como cidadãos de bem, ao contrário do pobre pai do menino Wesley, que só teve a chance de ver sua pequena criança injustamente morta...

terça-feira, 20 de outubro de 2009

O RUMO DA HISTÓRIA

O livro, a escola, o tempo, a vida...

(Escrito originalmente em 2003, reescrito em 2007, quando o enviei para a Revista Nós da Escola... Mexi em algumas palavras ao postar neste blog em 2009...*1)



“Quem jamais não viu a velhice louvar o passado e não louvar o presente, imputando ao mundo e aos costumes de sua época sua miséria e sua tristeza? ‘Sacudindo a cabeça calva, o velho lavrador suspira; compara o presente ao passado, louva a felicidade de seu pai e fala sem cessar da moral dos tempos antigos’ [LUCRÉCIO].” MONTAIGNE: Ensaios II; XIII (*2)




Imaculada Conceição





A menina abriu a mochila e tirou um livro. Devia estar curiosa com o rumo da história. Inconformados, seus colegas me cobraram uma atitude de repreensão: afinal, não se deveria ler (por puro lazer!) na sala de aula, no horário reservado aos deveres da disciplina. Compreensível. Na escola há uma “sala de leitura” e, em espaços escolares, cobra-se que tudo permaneça em seus lugares apropriados e tempo determinado. Assim, no meio de um turbilhão de olhares, uns concentrados no colorido de seus trabalhos de arte, outros a me cobrarem uma atitude, estavam um livro e uma menina a tirar da mochila, nesse ato tão singular e pessoal, um mundo. Tarde demais para detê-la. Silenciosa, ela havia mergulhado em sua leitura...

Um livro e uma menina a fazer coisas proibidas ao olhar de seus pares. Vendo-a ler, lembrei-me de mim mesma, de meu olhar originário, quando, pré-leitora, cometia pequenas e perversas transgressões com os livros que em minhas mãos se transformavam de suporte da escrita em "livros-arte".
"Preciosos" livros de capa dura, retirava-os um por um de sua pequena estante e, escondida de todos os olhares repressores, brincava de sublinhar, contornar, colorir, recortar, furar, rabiscar os inúmeros signos que ali encontrava e que não era ainda capaz de distinguir se números, letras, figuras, símbolos matemáticos, palavras conterrâneas ou estrangeiras. Tudo era encanto e mistério. Livros não serviam para serem lidos. Eram objetos de pura diversão. Sensorial. Carnal.
Meu pecado, no entanto, não era original, tive precursores: os furos das traças e a imundície das baratas. A estante, fragmento de uma velha penteadeira de minha mãe, dava morada, junto às palavras, a toda espécie de insetos caseiros; e a preciosidade dos livros estava antes na necessidade escolar de meu irmão mais velho e nos desmedidos esforços de meu pai, incansável em suas buscas pelos sebos da cidade, mesmo mal sabendo assinar o próprio nome, do que na qualidade ou raridade das edições.
Um dia... deram-me o castigo merecido... tive de aprender a ler!
Contra minha vontade...
Foi duro e dolorido tentar fazer sair de mim o que parecia nunca ter estado lá. "É nossa língua"! Repetiam-me, como se isso fosse bom argumento!
É nossa língua, mas como ela me parecia estranha assim, codificada nas páginas impressas... Tantas regras que mais conseguiam usurpar todo aquele encanto que outrora eu manipulava nos livros, do que me conduzir ao prometido: o fascinante acesso a um mundo novo!
Apanhei muito, chorei muito e, com as letras embaçadas pelas lágrimas, não imaginava encontrar nada sequer parecido com o prazer de outrora...
Mas como continuavam a me garantir que um dia isso me viciaria de tanto regozijo... Continuei. Machado de Assis, Mario de Andrade, Nelson Rodrigues, Clarice Lispector... Os primeiros a me recortarem dos livros um outro prazer. Os primeiros a me levarem do meu cantinho de recortes e cores atrás da velha penteadeira até seus mundos: nosso mundo, nossa língua e suas múltiplas falas. Continuei...
Traduções me conduziram ainda mais longe, até um Cortazar, um Allan Poe, um Oscar Wilde, um Maupassant, um Kafka, um Dostoievski... Os primeiros a me conectarem com outras realidades, outros sonhos, outras dores, os primeiros a me pintarem uma outra história: nossa História, nosso mundo!

As palavras finalmente haviam me seduzido, mas o tremor continuou... e a língua permaneceu esse estranho alienígena a habitar-me... Talvez por isso (uma mal curada dislexia?) tenha escolhido as imagens às palavras...

Hoje, professora, a cada olhar iniciante que encontro, de fascínio ou temor, para com este estranho e sedutor objeto, o livro, me leva a refletir...


O que é o livro para nossas crianças e nossos jovens? É ainda importante? E a leitura? A escrita? Ainda sedutoras? Sim. Acredito que sim. Vejo que sim. Talvez a relação (ou o meio como chegam) é que tenha mudado. Não mais uma penteadeira velha com ensebados livros... Ou uma bibliografia forçosamente exigida pelo professor. Mas pela sedução das conversas na net, as indicações nos blogs pessoais, nos sites de relacionamentos - os MSNs e os Orkuts da vida, com suas múltiplas comunidades (quantas não são dedicadas a livros e escritores?)... Uma indicação de um amigo aqui, um comentário ali... E a curiosidade vai se instalando... Primeiro, uma versão on-line - para chegar rápido à obra e matar logo a curiosidade -, depois... De uma biblioteca virtual a uma real... Quem sabe? Mas só na virtualidade... quanta coisa não há?

E a escrita? Primeiro, uma conversa entre amigos internautas: a escrita rápida, “descuidada”, plena de gírias específicas, de sinais, de visualidades, de abreviações inventadas especialmente para esse meio... Uma fala quase “oral”, melhor: oral-literário-visual. Depois... Quem sabe... Às vezes, a vontade cresce... Vontade de escrever mais, de se expressar para um púbico maior do que seu virtual grupo de relacionamentos... Usar outros meios, outros modos de escrita... Vontade de expandir sua fala mundo afora...

Palavras... Falas... Livro, que importa se digital, navegável? Que importa se o livro é simples brochura, se ensebado, carcomido, ou belamente resguardado em duras e preciosas capas? E-book ou o velho livro guardião da palavra... que importa? ...um suporte para as escutas e falas, um passaporte para cruzar fronteiras, conectando o singular e o social, o individual e o histórico: o “eu” e o “eles” num “nós”...
Escrever, ler (palavras, imagens...) têm um lado que é sempre singular, pessoal, experiência única. Ao mesmo tempo, como dizê-la única e pessoal sem trair o coletivo ao qual pertencemos? O ar que respiramos e nos ensina a ver segundo seus perfumes: às vezes lúgubres, outras vezes doces... O povo do qual nascemos, seus sabores e dores, sua diversidade e adversidades... A língua que falamos, lemos, amamos (e, às vezes, tememos). Milhares de línguas, milhares de falas que o mundo comporta e que gostaríamos de poder partilhar pelo acesso direto ou pelos tradutores. Milhares de signos, de leituras: infindáveis em seus mistérios... Todo este “antes” em que um dia nos encontramos inseridos, todo este antes, mergulhado num agora, projetado num amanhã, chamado cultura e história e que nos faz ser como somos: um singular que compartilha um destino comum que coexiste num mesmo mundo e aí aprende a ser comum com todo outro: a conviver.


Tudo se repete e há sempre uma nova história. Aqui estou eu, professora, um turbilhão de olhares, um livro e uma menina. Ela poderia estar em qualquer tempo e lugar do mundo, mas ela e seus colegas estão aqui, cúmplices de nossa contemporaneidade. Encurralados pelo medo e balas perdidas; sitiados pela insegurança; desabrigados pelas enchentes e desmoronamentos; perdidos pela insensatez que reina solta: singulares tragédias que nos espreitam a cada esquina e nossa comum tragédia preste a fazer detonar o mundo inteiro.
O homem e o mundo, hoje como ontem, cada vez mais divididos pelas margens de um rio, pelos lados das montanhas, por destoantes tempos históricos que, paradoxalmente, se sobrepõem em nossa mesma contemporaneidade. Um mundo virtual e um mundo real, um mundo computadorizado, informatizado, sintonizado e um mundo volatilizado, virado poeira, pelos desertos de guerra e fome; um mundo chacinado, manchado. Aqui estamos nós: divididos pelo vazio que nos ronda, ou, quem sabe, o sentido que ainda nos resta? O que está ainda ao nosso alcance saber? O que ainda queremos? O que ainda nos é digno esperar? Quanta insegurança e conflitos, quantos problemas a serem superados: desemprego, desestruturação familiar, violência urbana, guerras de tráfico... Tantas urgências a serem satisfeitas: moradia insuficiente, condições precárias de saúde, vestimenta, alimentação... Superar tudo isso e ainda encontrar tempo, ânimo, disposição, alegria para se concentrar na leitura, dinheiro para comprar o livro ou empenho para pedi-lo emprestado, deslocar-se até uma biblioteca (às vezes distante...), conectar-se à rede... buscar o rumo da história!


Quase surreal? Mas o que sobra de realidade senão refugiarem-se (quando ao menos isso é possível!) nossos pequenos cidadãos neste "abrigo coletivo" chamado escola? E se para alguns ela “não mais interessa” (incluindo aí até mesmo professores, que já tendo desistido de acreditar, preferem louvar a escola do passado, o alunado de outrora, os “bons tempos” que não voltam mais... esquecendo que o tempo sempre se renova!), para muitos a escola ainda é o lugar da esperança, o lugar (às vezes o único!) que torna possível o encontro com novas possibilidades, experiências, perspectivas... Aqui (ainda) se condiciona e se repete – se “disciplina” - , mas aqui também se encontra o tempo e o espaço para se exercer a singularidade de ler, pensar, escrever, refletir, sonhar, criar e, então, (com)partilhar, comunicar...

Aqui, como na pequena estante de minha infância, deixei-me seduzir pelas imagens e palavras, suas leituras, suas vozes e escutas, suas cores e formas: a vida sempre a se renovar... Aqui, encontro olhares que se iniciam. Pequenos olhares: grandes olhares. Receosos, curiosos, inconformados, indisciplinados, exigentes, encantados... Aqui, no olhar de cada pequeno cidadão que nasce para o mundo inicia-se o esboço que continuará a traçar nossa cultura, nossa história, nossos destinos...





(*1) Este texto foi aceito para publicação na Revista Nós da Escola, da Multirio, em 2007, mas... a revista saiu de circulação e o texto nuca foi publicado...

(*2) Lucrécio, poeta e pensador latino do séc. I a.C., citado por Montaigne, pensador francês do séc.XVI, citado por Imaculada Conceição, arte-educadora do ensino fundamental do Rio de Janeiro, adentrando o séc.XXI.. ;)