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domingo, 29 de novembro de 2009

PÁSSARO AZUL, PAREDES RABISCADAS, PORTAS DE BANHEIRO, MUROS PICHADOS, O VAZIO ETERNO DESTES SITES INFINITOS...

[ ...algo que eu quero (agora) escrever... (parte II) ]




O silêncio eterno desses espaços infinitos me apavora (Blaise Pascal)



[3]



Imaculada Conceição

Faz alguns dias e eu tweetei pela primeira vez[1]. Eu não pretendia "seguir" mais esta... moda? Uma colega professora me perguntou: você tem o twitter da secretária de educação? Dizem que ela [ou a equipe] sempre responde! Eu estava com uma dúvida que colega professor nenhum conseguia me dar a resposta. Bem, não era pra tanto perguntar à secretária de educação de nosso município – até porque acabei me virando na resposta em questão -; por isso, não vi, a princípio, nenhum interesse em entrar pro Twitter (além do mais, de meus contatos do mundo presencial, poucos estão lá, e dos que estão, ainda menos são os que tweetam com frequência).
Um dia, porém, a curiosidade tomou conta de mim, fui até o site, coloquei minha conta do Google/Gmail (pra adicionar contatos) e lá estava eu, “seguindo o pássaro azul”...

Falei aqui sobre Twitter por conta de meu texto anterior sobre correspondências internautianas (clique aqui). Lá, eu falei sobre ter um interlocutor que poderia ser dito virtual, sem, no entanto, sê-lo de todo, já que se trata de uma pessoa (mesmo quando esta é dissimulada num “fake”, ainda assim é uma pessoa... apenas exercendo sua capacidade “fraudulenta”) real, de carne, osso, sangue, sentimentos, dores, alegrias, tristezas, dúvidas etc., do outro lado da fala. Mas acabei não falando: e quando escrevemos em lugares como, p.ex., este aqui, um blog - que talvez seja lido por alguém, talvez... por ninguém?

Enviar e-mail, bater papos em sites de relacionamentos etc. tem um interlocutor “real” (a não ser que seja spam ou um daqueles “e-mails boatos”, que levam um leve terror à população, como uma “lenda urbana”... estes se dirigem a quem abrir e ler... qualquer um... ninguém...); mas, e escrever em sites e blogs ou microblogs (como o Twitter)? Há uma virtualidade no fato que é apenas uma possibilidade o ouvinte de nossa fala. Quantos textos, quantas milhares de imagens não estão por aí, navegando perdidos nos espaços infinitos da internet? Certo, há sites e blogs com um público específico (e fiel, como nas comunidades online); e no Twitter muitas vezes nos dirigimos a alguém em particular, mas, ainda assim, grande parte do que está por ai (e por aqui) dirige-se a um público “possível” (verdadeiramente, virtual!).


Ora, não haveria aí também uma similaridade com nossas vivências precedentes, anteriores ao mundo das virtualidades digitais? Crianças, idosos, doentes mentais, prisioneiros, vândalos, artistas etc. muitas vezes gostam de tomar paredes e mais paredes com suas palavras, garatujas, desenhos, signos... Poetas e escritores escrevem muitas vezes pra “ninguém”. Escrevem e rasgam. Ou engavetam... Esta vontade humana de se expressar, de falar, de escrever (neste caso, certo, depois do mundo letrado e para os que tiveram a sorte de se tornarem letrados) não é nova! Mudaram os meios? Talvez só isso... As pessoas falam em “revolução da internet”, do mundo digital, virtual etc., mas eu só vejo uma continuação de nossa humanidade. (Inter)Relação ou simbiose homem-máquina? Sim. Algumas vezes... Mas o que ainda é mais forte é a relação homem-homem e a máquina intermediando. Ou é o homem com ele próprio. Ou é o homem com outro humano...

Escreve-se “para ninguém” - ou "pra qualquer um" - quando se enchem paredes etc. Como quando se é criança – eu mesma, em quantas paredes não deixei minhas garatujas? -, ou em alguns casos da velhice avançada... - como minha mãe já idosa(4) pelas paredes da sala de estar; como os confinados (ou não) nos manicômios, como os detentos em suas celas, como os pichadores dos muros urbanos, como o anônimo em seu ato solitário que senta no vaso de um banheiro público e deixa lá, na porta, seus registros gráficos – misto de vandalismo, poesia, desabafo, necessidade básica da natureza humana de se expressar, de se comunicar com não importa quem...



Já me diverti (e refleti) muito lendo o que esses "poetas do anonimato" escreveram. Na faculdade de filosofia do Rio (IFCS/UFRJ), p.ex., na época em que estudei por lá, as portas dos banheiros eram plenas de reflexões, entre outras banalidades comuns a todos nós humanos (declarações de amor, manifestações de tesão, doçuras, sonhos, perversões...). Lembro de uma ocasião em que um artista plástico levou umas portas de banheiros (acho que da Central do Brasil, mas não tenho certeza... faz tempo...) para expor. Na exposição teve público leitor certo. Mas o cara que escreve nas portas dos banheiros públicos escreve “para ninguém” e “para todo mundo”. Desabafam, refletem, poetizam, xingam, criticam, erotizam, enviam recados... É apenas a vontade humana de se expressar, falar, gritar...


Assim como é uma vontade humana ouvir o que o outro tem a dizer. Pode ser que aquela imundice vândala não seja nem lida por ninguém, mas você põe o traseiro no vaso e lá estão as palavras, os desenhos, os signos, os rabiscos, os grafites etc. gritando pra você! Alguém lerá...
Em algum momento a imundice vândala de uma pichação urbana te tocará...




Certa vez, me emocionei muito ao ler, de dentro de um ônibus, escrito no alto de uma das paredes do Cais do Porto do Rio, uma sequência de banais pichações que terminavam com esta singularidade: “amanhecendo”... Pensei neste momento do solitário pichador. O fim da parede, o fim da escuridão da noite que o protegia da ilegalidade de seu vandalismo, o fim de suas palavras, de sua fala... por ora...


Eu, particularmente, nunca tive vontade de deixar um único ponto num desses espaços inusitados da fala humana - ao menos, não depois de adulta... Quando criança, sim. Eu escrevia pelas paredes de minha casa, pelos muros, eu deixei uma poesia no telhado quando consegui subir até lá... Eu escrevia cartinhas pra Deus. Eu as colocava atrás da "Santa Ceia", que ficava sob a mesa das refeições familiares. O quadro, uma reprodução da obra de Leonardo Da Vinci, graças a uma inclinação de alguns graus, aguentou o quanto pode minhas palavras ao Santíssimo. Um dia, porém, o bendito quadro tombou, derramando numa imundice só dezenas de bilhetinhos e cartas pelo chão da cozinha. Minha mãe respeitou, não leu, quis apenas saber de quem era a traquinagem!
Ficando eu proibida, a partir de então, de usar o “espaço sagrado”, passei a enterrar minhas correspondências ao Divino no canteiro de nossa casa. A infância se foi, mas a vontade de escrever (e ler o que as pessoas escrevem), não. Às vezes, é vontade de escrever para um “público certo”, para um interlocutor (ou interlocutores) definido, às vezes, é vontade de escrever “pra ninguém”... ou pra quem aparecer... e ler...


Eu coloco: “Bom dia, twitteiros!”: a quem me dirijo? A todos que me “seguem’’? Ou a ninguém? E aqueles a quem eu sigo quando escrevem? ...não importa... o que importa? Vou lendo os tweets que me chegam (e escrevendo os meus) como frases nas portas dos banheiros públicos... como as pichações nos muros da cidade, nos bancos dos coletivos urbanos... como as paredes dos manicômios... casas que tem crianças e velhos... as celas dos presídios... blogs, sites e demais sítios online que carregam milhares e milhares de palavras, imagens, informações... Eu escrevo neste blog, eu tweeto no meu microblog palavras... palavras... palavras... palavras... palavras... Paredes, muros, portas de banheiro virtuais...[2] Eu (per)sigo o pássaro azul...

[ O pássaro azul do Twitter ]


[ O Pássaro Azul, peça de Maurice Maeterlinck (L’Oiseaux Bleau); aí na imagem, a versão americana (The Blue Bird) filmada na década de 40 com Shirley Temple e os efeitos especiais de um cara que entrou pra história da animação, Walter Lang. Vi este filme quando criança, na Sessão da Tarde, e o revi há alguns meses, na companhia de minha mãe - que era fã do filme e da protagonista, cujos cachinhos ela tentava reproduzir em meus louros cabelos de menina -, um pouco antes dela falecer... Hoje, 24/11/09, dia em que escrevo este texto, faz exatamente três meses... ]


NOTAS:

[1] Manuscrevi este texto em 24/11/2009 (pouco depois de tweetar pela primeira vez em 19/11/09), e o postei no blog, salvando-o como rascunho, em 29/11/09. Mas só hoje, 25/01/2010 é que o tornei público - embora a data que conste seja ainda a do rascunho feito em 2009! É verdade que eu podeira (re)postar com a data atualizada, mas... achei legal esta do blog de preservar a data em que postamos o texto pela primeira vez.

[2] Recentemente, uma colega professora me enviou um manual online sobre o Twitter - “Tudo o que você precisa saber sobre o Twitter (você já aprendeu numa mesa de bar)” - e eu achei o site “Twitter Brasil” [clique nas imagens laterais para entrar nos sites], neles descobri – e no próprio Twitter – umas definições bem divertidas: “Twitter é, no final das contas, uma mesa de bar”; “É um radar captando o que milhões de pessoas estão pensando/fazendo naquele momento; “É um confessionário em praça publica”; “É como um pátio de hospício, cada um falando ‘sozinho’, eventualmente alguém responde”; “É fruto do amor proibido entre o scrap do Orkut e o MSN” etc. etc. etc. Vejo que tem de tudo por lá, de autopromoção a propaganda (velada, mas nem tanto) política - aliás, há um verdadeiro bombardeio de propagandas dos mais variados produtos e serviços -; de citações literárias e filosóficas a "pornopiadas"; de links educativos ou informações úteis a bobagens inúteis - embora algumas vezes divertidas! -; de notícias de última hora a jornalismo tardio; enfim, todo tipo de divulgação, confissão, desabafo, provocação, palavras poéticas, passos da rotina diária, pessoal ou profissional - que muitas vezes se mesclam, numa mistura de público e privado - etc. etc. etc. 
Por isso as definições dos que usam o Twitter são muitas... mas minha primeira impressão - assim entrei - foi esta, a da correlação entre os grafismos e escritos espalhados pela cidade – seja nos espaços coletivos da urbanidade, seja no espaço privado de nossos lares, celas etc. - e tudo que é lançado na imensidão destes espaços infinitos, a Internet...

[3] Para quem não conhece, esta é uma das falas do Profeta Gentileza (José Datrino) de seu “livro urbano”, cujas páginas foram escritas nas pilastras de um viaduto no Centro do Rio. Eu cheguei a pegar várias vezes ônibus com ele pro Centro, na Av. Brasil, no ponto do bairro onde moro (e ele morou por uns tempos...). Uma figura enigmática, com sua túnica branca e imagens coloridas, sua longa barba, seu discurso mítico-místico, seu profético estandarte...

[4] "Velhice avançada"? Esta quarta nota, acrescento agora, em 2010, só pra dizer que, após a morte da mãe de Roberto Carlos, aos 96 anos, e da mãe de Chico Buarque de Holanda, aos 100 anos, vejo que minha mãe era até "nova" quando faleceu, já que, pela idade, bem poderia ter sido filha de uma delas!


Imaculada Conceição







terça-feira, 20 de outubro de 2009

O RUMO DA HISTÓRIA

O livro, a escola, o tempo, a vida...

(Escrito originalmente em 2003, reescrito em 2007, quando o enviei para a Revista Nós da Escola... Mexi em algumas palavras ao postar neste blog em 2009...*1)



“Quem jamais não viu a velhice louvar o passado e não louvar o presente, imputando ao mundo e aos costumes de sua época sua miséria e sua tristeza? ‘Sacudindo a cabeça calva, o velho lavrador suspira; compara o presente ao passado, louva a felicidade de seu pai e fala sem cessar da moral dos tempos antigos’ [LUCRÉCIO].” MONTAIGNE: Ensaios II; XIII (*2)




Imaculada Conceição





A menina abriu a mochila e tirou um livro. Devia estar curiosa com o rumo da história. Inconformados, seus colegas me cobraram uma atitude de repreensão: afinal, não se deveria ler (por puro lazer!) na sala de aula, no horário reservado aos deveres da disciplina. Compreensível. Na escola há uma “sala de leitura” e, em espaços escolares, cobra-se que tudo permaneça em seus lugares apropriados e tempo determinado. Assim, no meio de um turbilhão de olhares, uns concentrados no colorido de seus trabalhos de arte, outros a me cobrarem uma atitude, estavam um livro e uma menina a tirar da mochila, nesse ato tão singular e pessoal, um mundo. Tarde demais para detê-la. Silenciosa, ela havia mergulhado em sua leitura...

Um livro e uma menina a fazer coisas proibidas ao olhar de seus pares. Vendo-a ler, lembrei-me de mim mesma, de meu olhar originário, quando, pré-leitora, cometia pequenas e perversas transgressões com os livros que em minhas mãos se transformavam de suporte da escrita em "livros-arte".
"Preciosos" livros de capa dura, retirava-os um por um de sua pequena estante e, escondida de todos os olhares repressores, brincava de sublinhar, contornar, colorir, recortar, furar, rabiscar os inúmeros signos que ali encontrava e que não era ainda capaz de distinguir se números, letras, figuras, símbolos matemáticos, palavras conterrâneas ou estrangeiras. Tudo era encanto e mistério. Livros não serviam para serem lidos. Eram objetos de pura diversão. Sensorial. Carnal.
Meu pecado, no entanto, não era original, tive precursores: os furos das traças e a imundície das baratas. A estante, fragmento de uma velha penteadeira de minha mãe, dava morada, junto às palavras, a toda espécie de insetos caseiros; e a preciosidade dos livros estava antes na necessidade escolar de meu irmão mais velho e nos desmedidos esforços de meu pai, incansável em suas buscas pelos sebos da cidade, mesmo mal sabendo assinar o próprio nome, do que na qualidade ou raridade das edições.
Um dia... deram-me o castigo merecido... tive de aprender a ler!
Contra minha vontade...
Foi duro e dolorido tentar fazer sair de mim o que parecia nunca ter estado lá. "É nossa língua"! Repetiam-me, como se isso fosse bom argumento!
É nossa língua, mas como ela me parecia estranha assim, codificada nas páginas impressas... Tantas regras que mais conseguiam usurpar todo aquele encanto que outrora eu manipulava nos livros, do que me conduzir ao prometido: o fascinante acesso a um mundo novo!
Apanhei muito, chorei muito e, com as letras embaçadas pelas lágrimas, não imaginava encontrar nada sequer parecido com o prazer de outrora...
Mas como continuavam a me garantir que um dia isso me viciaria de tanto regozijo... Continuei. Machado de Assis, Mario de Andrade, Nelson Rodrigues, Clarice Lispector... Os primeiros a me recortarem dos livros um outro prazer. Os primeiros a me levarem do meu cantinho de recortes e cores atrás da velha penteadeira até seus mundos: nosso mundo, nossa língua e suas múltiplas falas. Continuei...
Traduções me conduziram ainda mais longe, até um Cortazar, um Allan Poe, um Oscar Wilde, um Maupassant, um Kafka, um Dostoievski... Os primeiros a me conectarem com outras realidades, outros sonhos, outras dores, os primeiros a me pintarem uma outra história: nossa História, nosso mundo!

As palavras finalmente haviam me seduzido, mas o tremor continuou... e a língua permaneceu esse estranho alienígena a habitar-me... Talvez por isso (uma mal curada dislexia?) tenha escolhido as imagens às palavras...

Hoje, professora, a cada olhar iniciante que encontro, de fascínio ou temor, para com este estranho e sedutor objeto, o livro, me leva a refletir...


O que é o livro para nossas crianças e nossos jovens? É ainda importante? E a leitura? A escrita? Ainda sedutoras? Sim. Acredito que sim. Vejo que sim. Talvez a relação (ou o meio como chegam) é que tenha mudado. Não mais uma penteadeira velha com ensebados livros... Ou uma bibliografia forçosamente exigida pelo professor. Mas pela sedução das conversas na net, as indicações nos blogs pessoais, nos sites de relacionamentos - os MSNs e os Orkuts da vida, com suas múltiplas comunidades (quantas não são dedicadas a livros e escritores?)... Uma indicação de um amigo aqui, um comentário ali... E a curiosidade vai se instalando... Primeiro, uma versão on-line - para chegar rápido à obra e matar logo a curiosidade -, depois... De uma biblioteca virtual a uma real... Quem sabe? Mas só na virtualidade... quanta coisa não há?

E a escrita? Primeiro, uma conversa entre amigos internautas: a escrita rápida, “descuidada”, plena de gírias específicas, de sinais, de visualidades, de abreviações inventadas especialmente para esse meio... Uma fala quase “oral”, melhor: oral-literário-visual. Depois... Quem sabe... Às vezes, a vontade cresce... Vontade de escrever mais, de se expressar para um púbico maior do que seu virtual grupo de relacionamentos... Usar outros meios, outros modos de escrita... Vontade de expandir sua fala mundo afora...

Palavras... Falas... Livro, que importa se digital, navegável? Que importa se o livro é simples brochura, se ensebado, carcomido, ou belamente resguardado em duras e preciosas capas? E-book ou o velho livro guardião da palavra... que importa? ...um suporte para as escutas e falas, um passaporte para cruzar fronteiras, conectando o singular e o social, o individual e o histórico: o “eu” e o “eles” num “nós”...
Escrever, ler (palavras, imagens...) têm um lado que é sempre singular, pessoal, experiência única. Ao mesmo tempo, como dizê-la única e pessoal sem trair o coletivo ao qual pertencemos? O ar que respiramos e nos ensina a ver segundo seus perfumes: às vezes lúgubres, outras vezes doces... O povo do qual nascemos, seus sabores e dores, sua diversidade e adversidades... A língua que falamos, lemos, amamos (e, às vezes, tememos). Milhares de línguas, milhares de falas que o mundo comporta e que gostaríamos de poder partilhar pelo acesso direto ou pelos tradutores. Milhares de signos, de leituras: infindáveis em seus mistérios... Todo este “antes” em que um dia nos encontramos inseridos, todo este antes, mergulhado num agora, projetado num amanhã, chamado cultura e história e que nos faz ser como somos: um singular que compartilha um destino comum que coexiste num mesmo mundo e aí aprende a ser comum com todo outro: a conviver.


Tudo se repete e há sempre uma nova história. Aqui estou eu, professora, um turbilhão de olhares, um livro e uma menina. Ela poderia estar em qualquer tempo e lugar do mundo, mas ela e seus colegas estão aqui, cúmplices de nossa contemporaneidade. Encurralados pelo medo e balas perdidas; sitiados pela insegurança; desabrigados pelas enchentes e desmoronamentos; perdidos pela insensatez que reina solta: singulares tragédias que nos espreitam a cada esquina e nossa comum tragédia preste a fazer detonar o mundo inteiro.
O homem e o mundo, hoje como ontem, cada vez mais divididos pelas margens de um rio, pelos lados das montanhas, por destoantes tempos históricos que, paradoxalmente, se sobrepõem em nossa mesma contemporaneidade. Um mundo virtual e um mundo real, um mundo computadorizado, informatizado, sintonizado e um mundo volatilizado, virado poeira, pelos desertos de guerra e fome; um mundo chacinado, manchado. Aqui estamos nós: divididos pelo vazio que nos ronda, ou, quem sabe, o sentido que ainda nos resta? O que está ainda ao nosso alcance saber? O que ainda queremos? O que ainda nos é digno esperar? Quanta insegurança e conflitos, quantos problemas a serem superados: desemprego, desestruturação familiar, violência urbana, guerras de tráfico... Tantas urgências a serem satisfeitas: moradia insuficiente, condições precárias de saúde, vestimenta, alimentação... Superar tudo isso e ainda encontrar tempo, ânimo, disposição, alegria para se concentrar na leitura, dinheiro para comprar o livro ou empenho para pedi-lo emprestado, deslocar-se até uma biblioteca (às vezes distante...), conectar-se à rede... buscar o rumo da história!


Quase surreal? Mas o que sobra de realidade senão refugiarem-se (quando ao menos isso é possível!) nossos pequenos cidadãos neste "abrigo coletivo" chamado escola? E se para alguns ela “não mais interessa” (incluindo aí até mesmo professores, que já tendo desistido de acreditar, preferem louvar a escola do passado, o alunado de outrora, os “bons tempos” que não voltam mais... esquecendo que o tempo sempre se renova!), para muitos a escola ainda é o lugar da esperança, o lugar (às vezes o único!) que torna possível o encontro com novas possibilidades, experiências, perspectivas... Aqui (ainda) se condiciona e se repete – se “disciplina” - , mas aqui também se encontra o tempo e o espaço para se exercer a singularidade de ler, pensar, escrever, refletir, sonhar, criar e, então, (com)partilhar, comunicar...

Aqui, como na pequena estante de minha infância, deixei-me seduzir pelas imagens e palavras, suas leituras, suas vozes e escutas, suas cores e formas: a vida sempre a se renovar... Aqui, encontro olhares que se iniciam. Pequenos olhares: grandes olhares. Receosos, curiosos, inconformados, indisciplinados, exigentes, encantados... Aqui, no olhar de cada pequeno cidadão que nasce para o mundo inicia-se o esboço que continuará a traçar nossa cultura, nossa história, nossos destinos...





(*1) Este texto foi aceito para publicação na Revista Nós da Escola, da Multirio, em 2007, mas... a revista saiu de circulação e o texto nuca foi publicado...

(*2) Lucrécio, poeta e pensador latino do séc. I a.C., citado por Montaigne, pensador francês do séc.XVI, citado por Imaculada Conceição, arte-educadora do ensino fundamental do Rio de Janeiro, adentrando o séc.XXI.. ;)